Olhar de Cinema 2022: um primeiro dia recompensador
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Olhar de Cinema 2022: um primeiro dia recompensador

Além de Rewind & Play, a jornada teve Freda, do Haiti, A Ferrugem, da Colômbia, e O Grande Movimento, da Bolívia. Filmes de qualidade, para combater preconceitos contra cinemas de países não-hegemônicos.

Luiz Zanin Oricchio

03 de junho de 2022 | 12h36

 

Depois da bela surpresa com Thelonious Monk em Rewind & Play (veja post anterior), a maratona prosseguiu em nível bastante alto: Freda, do Haiti, A Ferrugem, da Colômbia, e O Grande Movimento, da Bolívia, compõe um panorama de bastante diversidade, intensidade e invenção cinematográfica. Em graus diferentes. 

Começando pelo fim, com O Grande Movimento, o mais impactante dos filmes do dia. O começo é impressionante. A câmera vai se aproximando lentamente da cidade grande, aos poucos, até baixar num grande congestionamento de automóveis, um caos urbano para ninguém botar defeito. O rigor das imagens é exemplar. 

A essa cidade grande, La Paz, um grupo de homens chega a pé. Desempregados das minas do interior do país, vão para a cidade grande em busca de trabalho. Encontram o subemprego, a exploração, trabalham carregando caixas no mercado, dormem na rua, convivem com o lumpesinato da área. Inclusive um tipo incrível de clochard, chamado Max. 

Entre esse grupo de homens, está Elder, que se mostrará o mais susceptível, o mais frágil, e começará a desenvolver sintomas misteriosos, uma fraqueza, dificuldade na respiração, etc. Sintomas que, depois da pandemia, se tornarão reconhecíveis para qualquer leigo. 

O filme, dirigido por Kiko Russo, não se prende ao realismo. Em meio às alucinações de Elder, surgirão ícones dos deuses dos povos originários, da cosmologia ameríndia. No desfecho, um final trepidante, obviamente inspirado na Sinfonia da Metrópole, de Walter Ruttmann (1927) e dos trabalhos de Dziga Vertov. Um filmaço, que trata a questão social com a sofisticação do cinema de invenção. 

A Ferrugem, da Colômbia, também é um ótimo filme. Mostra a vida de um jovem, Jorge (Daniel Ortiz), que trabalha na fazenda de café da família. O pai morreu em circunstâncias que não ficam claras no início. Ele mantém um relacionamento com uma prima e toma conta do avô, inválido. Há um tom documental, registrando o cotidiano do interior, naquela paisagem montanhosa, com a plantação nas encostas. Uma vida isolada, a princípio. Mas depois surgem as baladas na cidade mais próxima e o clima muda. Em especial quando Jorge se reencontra com uma namorada da infância, que cedo foi embora para a cidade grande. São dilemas geracionais. Ficar onde os pais plantaram um futuro ou aventurar-se pelo desconhecido. O forte da obra é o clima imposto pelo diretor Juan Sebastian Mesa, dono de um domínio de narração muito forte.

Freda, de Gessica Généus, é a rara oportunidade de assistir a um filme haitiano. Também aqui temos o dilema da juventude entre ficar com uma realidade frustrante porém conhecida e aventurar-se. A garota Freda (Néhémie Bastien) mora com a família em Porto Príncipe. Sobrevivem com uma pequena mercearia e tentam levar a vida em meio à instabilidade crescente e a violência do país. A alternativa é mudar-se para o vizinho Santo Domingo. Em meio a conflitos familiares e amorosos, a jovem Freda tenta decidir o que fazer. O filme tem méritos, o principal deles, a sinceridade que emana de sua construção. 

Balanço do primeiro dia: muito recompensador. 

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