Olhar de Cinema 2022: últimos passos de uma jornada feliz
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Olhar de Cinema 2022: últimos passos de uma jornada feliz

Luiz Zanin Oricchio

08 de junho de 2022 | 12h20

É Preciso uma Aldeia: eleição de bodes expiatórios

 

CURITIBA – Vai chegando ao fim o 11º Olhar de Cinema. Hoje à noite serão anunciados os premiados. Mas ainda há alguns filmes por ver. E outros a comentar. Tem sido uma boa maratona, de cerca de quatro longas ao dia, com poucas decepções. E algumas lacunas. Não se pode dar conta de um festival com mais de cem filmes. Há que escolher. Fico sempre com a competitiva principal e vou recheando a grade horária com outras opções. 

Competitiva de longas. A maior parte já comentei aqui, como foram os casos de Alan, A Censora, Freda, A Ferrugem e Paterno. A seguir, um breve texto sobre os outros. 

Filme Particular (Brasil), de Janaína Nagata. Obra interessante, nascida do acaso. A diretora comprou pela internet um rolo de filme 16mm sem conhecer o conteúdo. São imagens curiosas, antigas, da África do Sul. A cineasta começa uma investigação, através do google. Revela-se todo um panorama da realidade do país sul-africano, antes da queda do apartheid. Algumas figuras se desenham, complexificando a imagem que temos daquele país. Tanto revelador quanto um pouco engessado pelo dispositivo, Filme Particular prevalece como obra original. Interpretadas, as imagens, em movimento ou não, dizem mais do que revelam em superfície. O estudo da iconografia se deu tradicionalmente por contextualização e interpretação. Aqui, a fonte é a internet. Com sua novidade e limitação. 

É Preciso uma Aldeia (República Checa), de Adam Koloman Rybansky. Tem o tom crepuscular das comédias da Europa do Leste, mas logo se desloca na direção de uma ácida crítica social. O bombeiro voluntário Standa (Michal Istenik) se vê no centro de uma investigação quando um veículo é jogado sobre a população durante uma festa. Não se sabe quem o dirigia. Mas logo aparecem testemunhas dizendo que se tratava de alguém de “pele escura”. Um cigano, talvez. Um estrangeiro, por certo. Árabe, com segurança. Um imigrante, estrangeiro, invasor. Portanto, alguém diferente e ideal como culpado. Como essas informações se instala a paranoia no vilarejo e a caça às bruxas. O medo é algo a ser estimulado e mantido para que as pessoas sejam mais facilmente manipuláveis. Mesmo quando a verdade começar a vir à tona, e contrariar a “narrativa” oficial, será ocultada. Afinal, o medo é a melhor forma de dominação, como sabem todos os intolerantes e candidatos a ditadores. De filmagem límpida, com aqueles toques de humor contido e diálogo leve com o absurdo, o filme vale pela eficácia da parábola – perfeita para os dias atuais e com raízes longínquas fincadas nas tradições fascistas europeias. 

O Trio em Mi Bemol (Portugal), de Rita Azevedo Gomes. Nos anos 1980, inspirada na música de Mozart que lhe dá título, Eric Rohmer escreveu uma peça teatral, que posteriormente filmou. Agora é a portuguesa Rita Azevedo Gomes quem propõe uma releitura do texto, adicionando-lhe uma camada de metacinema. Temos então um filme rodado dentro de outro filme. Um par (Rita Durão e Pierre Léon) interpreta um casal de ex-amantes que se reencontra. Ele está só, enquanto ela se uniu a outro homem. Há um cineasta que dirige o filme (Ado Arrieta), junto com uma jovem auxiliar (Olívia Cábez). São planos longos, muitas vezes com a câmera parada. Sem cortes, o casal interpreta o diálogo. Fala-se de cultura, de música em especial, mas não apenas. O ato amoroso enlaça-se ao discurso estético, com as falas sempre alusivas, à maneira do discurso amoroso do século das luzes. Artes, filosofia, literatura, o amor culto no ápice da civilização europeia. Muito teatral, porém. Apesar de rigoroso, falta, se a inspiração for Rohmer, o frescor das obras do mestre da nouvelle vague. 

Uma Noite sem Saber Nada (Índia), de Payal Kapadia. Uma jovem estudante de cinema remete cartas audiovisuais ao seu namorado, de quem está separada por fazer parte de uma casta inferior. Imagens de festas e comemorações são logo substituídas pelas de manifestações no campus da universidade de Bombaim. Os estudantes de cinema protestam porque um ator reacionário foi indicado como diretor da escola. O pau quebra, a polícia invade o câmpus, agride e encurrala os estudantes. O que eram cartas íntimas transforma-se em missivas políticas. A temperatura sobe e a obra alça voo, tornando-se um imersivo filme-ensaio, documento de geração e de um estado de coisas num país dominado pelo conservadorismo e tradições vencidas. Mais uma vez, neste Olhar de Cinema, a juventude tem a (melhor) palavra. 

Tudo o que sabemos sobre:

Olhar de Cinema