Olhar de Cinema 2020: ‘A metamorfose dos pássaros’ ou a delicadeza perdida
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Olhar de Cinema 2020: ‘A metamorfose dos pássaros’ ou a delicadeza perdida

Luiz Zanin Oricchio

15 de outubro de 2020 | 12h24

Cena de ‘A Metamorfose dos Pássaros’

Termina hoje à noite a edição online do Olhar de Cinema, quando serão conhecidos os vencedores. Como não tenho influência alguma sobre o júri, posso dizer que o filme português A Metamorfose dos Pássaros, de Catarina Vasconcelos, é, de longe, o meu favorito entre os concorrentes da mostra competitiva. 

Sei bem que a delicadeza é virtude em baixa nos mercados afetivos mundiais (mais ainda no Brasil), mas, por isso mesmo, me atrevo a dizer que parece mais necessária do que nunca. Até mesmo por sua raridade, convém revalorizá-la. Delicadeza é o que existe de sobra neste filme de estreia, uma singular memória familiar tratada em tom de fábula. 

As memórias do homem do mar, completamente apaixonado pela mulher que tem em terra e cria praticamente sozinha dos seis filhos do casal, escorre lentamente pela voz over da narradora, mas também por imagens que mais parecem pinturas de tão belas. Evocam um Portugal de antigamente, de vocação marítima, mas não se furtam, em meio ao lirismo, à evocação da crueza dos anos da ditadura Salazar. 

Assim desfilam, em tempos que se sobrepõem, memórias de três gerações de uma mesma família – a da própria diretora. Filme de estreia, formalmente elegante, não teme, em tempos tão tempestuosos, fazer sua elegia da figura da mãe e da família, sem por isso ter um pingo de conservadorismo moral em sua estrutura. Filme fora da curva. 

Da mesma forma como Longa Noite, do espanhol Eloy Enciso, singular modo de evocar a atmosfera opressiva da Guerra Civil. O autor – galego – trabalha com a estranha chegada de um personagem à sua aldeia natal, depois de ser dado como desaparecido durante a guerra. Em seu rigor, o desenho fotográfico imprime uma atmosfera sufocante enquanto a narrativa prossegue com palavras entrecortadas de testemunhas e cartas de condenados. O terror fascista fecha-se sobre a cena como a tampa de uma tumba. De arrepiar. 

Muito bom é Los Lobos, de Samuel Kishi, a história da jovem mexicana que emigra com dois filhos pequenos para os Estados Unidos. Com eles, instala-se num pequeno e desconfortável cômodo alugado. Como tem de trabalhar fora, as crianças passam os dias sozinhas e, contra a ordem da mãe, acabam por estabelecer laços com a vizinhança. O viés humanista salta como traço mais evidente deste trabalho que, na contraluz, examina os absurdos das fronteiras, das políticas migratórias e das intolerâncias de todo tipo. Não custa lembrar que os mexicanos são tidos como indesejáveis em território que antes pertencera ao seu país. 

Também fora do padrão, e a ser visto com o mesmo vagar imposto por seu ritmo, é o brasileiro Luz nos Trópicos, de Paula Gaitán. Chamado de “river movie”, começa nas águas gélidas do rio Hudson, em Nova York, para desaguar em pleno Pantanal – este mesmo que agora arde em chamas, sob indiferença governamental. Tudo flui através do personagem Igor (Begê Muniz), em busca de suas raízes Kuikuro. As memórias da América e do seu brutal processo colonial desfilam na tela como as águas caudalosas de um rio. Filme histórico-etnográfico fluvial, Luz nos Trópicos é uma viagem sem volta por nossa grandeza e nossa miséria. 

Também do Brasil, entra na competição o bom documentário Entre Nós Talvez Estejam Multidões, de Pedro Maria de Brito e Aiano Bemfica. Aqui se trata dos meandros de autoconstrução de uma comunidade, a ocupação urbana Eliana Silva, em Belo Horizonte. No meio da luta pela legalização do território conquistado, os moradores discutem política, militância, amor, sexo, companheirismo, e não escondem eventuais cisões. A arte aparece como elemento aglutinador da comunidade. Esse filme em progressão, tão realista quanto atento às contradições internas de todo processo de conquista de direitos, é importante para a compreensão do complexo país que temos hoje.  

Nasir, de Arun Karthick, fala, através de um personagem ficcional, da cada vez mais violenta discriminação contra muçulmanos na Índia. Um bonito filme, que não procura ser didático ou chantagista com a emoção do espectador. Apenas foca sua atenção num homem comum, o Nasir do título (interpretado por Koumarane Valavane), um gentil vendedor de tecidos, apaixonado por sua mulher e vítima da intolerância religiosa, este mal tão antigo e que ressurge com força em nosso tempo. 

Victoria é um original documentário dirigido por três mulheres belgas (Sofie Benoot, Liesbeth de Ceulaer e Isabelle Tollenaere), mas que tem por foco o afro-americano Laschay T. Warren. Ele se muda com a mulher e três filhos para um condomínio meio fracassado em meio ao deserto do Mojave, chamado California City. Varre ruas desertas e se filma com celular em longo depoimento de dois anos. Como se, no meio do nada, estivesse se afirmando como indivíduo singular através da imagem própria. Perfeita metáfora contemporânea sobre a persistência da opressão racial nos Estados Unidos, que consiste na negação do outro como ser humano em posse de seus direitos e existência civil.

Através de um dispositivo cinematográfico, o diretor Ra’Anan Alexandrowicz, estuda as repercussões imaginárias do conflito entre israelenses e palestinos em Na Cabine de Exibição. Vídeos de cenas chocantes são observadas em uma cabine por uma estudante norte-americana que faz estágio em Israel. Preconceitos, mas também tentativas de compreensão e entendimento deformado das cenas compõem um painel multifacetado sobre as dificuldades de percepção do outro. Em especial quando véus ideológicos de longa data se interpõem entre o observador e o observado. Interessante pela proposta sobre a análise da onipresente imagética contemporânea disponível online, em especial a que diz respeito à violência e à opressão. Mas, até mesmo pela rigidez do dispositivo fílmico, soa às vezes em modo artificial.

Também sobre o olhar estrangeiro é este ensaio francês Um Filme Dramático, de Eric Baudelaire. Captado ao longo de quatro anos por estudantes do ensino médio na periferia parisiense de Saint-Denis. Com suas câmeras, os alunos da primeira turma do recém-criado colégio Dora Maar debatem e ensaiam como representar a realidade em que vivem. Muitos deles, filhos de imigrantes, expressam a estranheza em face desse tal real imaginado. Um Filme Dramático tem seus momentos interessantes e sacadas boas, mas o uso permanente do recurso meta-cinematográfico acaba por se revelar dispersivo.   

 

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