Olhar de Cinema 2019: Tel Aviv em Chamas, a comédia da guerra
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Olhar de Cinema 2019: Tel Aviv em Chamas, a comédia da guerra

Dia teve também o drama intimista argentino De Novo outra Vez e o clássico de Raul Ruiz, A Hipótese do Quadro Roubado

Luiz Zanin Oricchio

11 de junho de 2019 | 11h07

 

 

CURITIBA

Em época tão confusa, deves ao mundo uma comédia. A frase foi citada pelo curador Aaron Cutler na apresentação do criativo Tel Aviv em Chamas, de Sameh Zoabi. O filme ironiza, mas de forma respeitosa (e, sobretudo, engraçada), o crônico conflito entre palestinos e israelenses, sem prazo para se resolver.

Salam é um assistente de direção de uma série televisiva sobre uma espiã que se envolve com um general israelense para obter informações sigilosas. Salam é promovido a roteirista quando, detido num posto de fronteira, recebe instruções valiosas de um oficial israelense sobre o comportamento de um general na posição daquele da série.

A novela toma nova direção e Salam vê-se alvo de várias pressões conflitantes – como desenhar os personagens, que diálogos escrever e, sobretudo, qual o desfecho adotar, se romântico ou realista.

O filme é despretensioso (no bom sentido) e brinca com a incapacidade humana de construir diálogos para valer com quem pensa diferente, pois isto significaria abandonar preconceitos e ideias já arraigadas pela tradição. Inteligente, o filme evita o simplismo das soluções pacifistas e mostra como comunidades próximas estão mais sujeitas ao tribalismo ideológico do que outras. Boa comédia.

De Novo outra Vez

Também na competição, tivemos o argentino De Novo Outra Vez, dirigido e interpretado por Romina Paula. Além do mais, Romina põe em cena sua mãe, seu filho pequeno e o marido, este em pequena sequência mais para o final.

A história (autobiográfica?) é a de uma jovem mulher em período de crise matrimonial que, junto com o filho pequeno, vai morar por uns tempos na casa da mãe para pensar na vida. É um filme de delicadeza e angústias individuais, tema em que o cinema argentino de classe média se tornou especialista.

Romina é atriz de teatro e escritora, o que talvez explique a facilidade exibida em quebrar a quarta parede e dirigir-se diretamente à câmera, como fazem ela e outros personagens. Por exemplo, seu aluno de alemão que, judeu, diz ter necessidade de visitar Berlim e checar in loco onde foi chocado o ovo da serpente nazista que vitimou seus antepassados.

Romina (a personagem) vive um momento de indefinição, em que sequer é capaz de decidir se continua casada ou separada. Sai com amigas, mas nao curte as festas. Hesita em começar um caso com o aluno de alemão, isola-se e angustia-se, sem se definir entre a liberdade da solteirice e o compromisso da vida casada.

Traça, ao mesmo tempo, sua genealogia, de família de origem alemã que, há três gerações no Novo Mundo, continua falando entre si no idioma de origem. Filme interessante, não muito mais do que isso. Há um pouco de excesso verbal, explicativo e retórico, em que as palavras valem mais que a força das imagens. Uma bela sequência de desfecho, em aberto e, por uma vez sem diálogos, redime um pouco a logorreia do conjunto da obra.

A Hipótese do Quadro Roubado

Um raro exemplar do cinema intelectual de Raul Ruiz, A Hipótese do Quadro Roubado, deu seguimento à retrospectiva consagrada ao diretor chileno, depois radicado na França.

Nesta obra realizada na França, Ruiz revela-se mais francês que os franceses, hipertrofiando, sem sentido talvez irônico, a análise racional de um caso estranho. Trata-se do desaparecimento do quadro de um pintor chamado Tonerre (Trovão), parte original de uma série de sete pinturas.

A montagem do quebra-cabeças conta com uma série de tableaux vivants, com participação de figuras conhecidas da intelligentsia francesa, como o crítico Jean Narboni, dos Cahiers du Cinéma. A foto, magnífica, é de Sacha Vierny.

O filme usa de procedimentos do pós-modernismo, brincando com a convivência entre personagens reais e inventados, obras de verdade e fictícias. Apela também à intertextualidade, erguendo pontes entre cinema, pintura e literatura. É cinema para cinéfilos cordon bleu.

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