Olhar de Cinema 2019: Guerra e Paz
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Olhar de Cinema 2019: Guerra e Paz

A guerra civil na Síria, a paz na montanha chinesa, memórias da ditadura argentina e um poderoso olhar africano sobre o racismo europeu

Luiz Zanin Oricchio

12 de junho de 2019 | 10h57

No Alto da Montanha

CURITIBA – Há mesmo uma certa redundância em Seguir Filmando, de Saeed Al Batal e Ghiath Ayoub. Mas compreende-se que tenha sido difícil montar em 120 minutos as mais de 450 horas de filmagem disponíveis. E em que situação! Quando a guerra civil transforma um país em escombros e faz da morte violenta um fato banal do dia a dia, deixamos de ter o direito de aplicar a um filme considerações normais de ordem cinematográfica. E passamos a admirar um grupo de jovens que sai pelo país com suas câmeras e infinita coragem para registrar os bastidores (e mesmo o proscênio) dos combates.

Desse modo, Seguir Filmando revela-se um importante documento sobre o que significa o cotidiano em uma situação de guerra. Quer dizer, uma exposição ao perigo de forma quase permanente, carência absoluta de meios materiais e uma tentativa de diálogo com a outra parte que, invariavelmente, dá em nada. (Quem acha a situação política no Brasil polarizada deve prestar atenção a um “diálogo” entre combatentes de partes opostas pelo radioamador).

Verdade, parece faltar um eixo nítido ao filme, de modo que as experiências do grupo vão se acumulando por superposição. No entanto, é um pouco isso mesmo: a habituação cumulativa com o cotidiano da guerra. E mesmo momentos de respiro, como uma animada festa entre jovens, parece mais um ato de desespero que manifestação de alegria autêntica. Uma espécie de dança à beira do abismo.

O desfecho é fortíssimo. Prepare-se.

No Alto da Montanha

Em compensação, o chinês No Alto da Montanha, de Zhang Yang, é um refresco para olhos e espírito. Acompanha o mestre pintor Shen Jianhua, que se mudou da gigantesca Xangai para uma aldeia nas montanhas e à beira de um lago chamada Da Li. Em sua casa, situada na altura, ele divisa um lago e ministra cursos de pintura a um grupo de idosos. O filme, em tela quase quadrada (1:1,33), comprime tanta beleza e a transforma em experiência pictórica.  Ao longo de um ano, tanto o cotidiano de Shen Jianhua, como da própria aldeia são acompanhados por uma câmera serena. O filme respira uma tranquilidade zen.

Segunda Vez

Um mix de performance e obra de tese conforma este Segunda Vez, da espanhola Dora García, inspirada em happenings do psicanalista argentino Oscar Masotta e no conto de Julio Cortázar que dá título ao filme.

A ideia é, através de uma série de esquetes, reviver o sufoco extremo da ditadura militar argentina, que espalhou o terror pelo país e contabiliza 30 mil mortes de oponentes.

O ambiente de terror e paranoia (com perseguidores reais) é mimetizado e simbolizado com eficácia desigual entre as partes do filme. Diálogos entre personagens numa biblioteca procuram dar conta do contexto histórico do país, que o levou a tamanha tragédia.

A artificialidade da forma joga contra o conteúdo, mas a recriação do conto de Cortázar (presente no livro Alguém que Anda por Aí) é bastante forte, com seu caráter de ameaça alusiva e pesada dos assassinos no poder.

Ó, Sol

O hoje clássico do cinema africano, Ó Sol, do mauritanês Med Hondo, impressiona pela modernidade. E pelo impacto. Ainda mais quando se sabe das suas condições de filmagem. Med emigrou para a França e trabalhava em restaurantes em Paris durante o dia. Filmava à noite, com precariedade. Levou quatro anos para terminar esse filme de aparência fragmentária, porém unido pelo fio comum das dificuldades de um jovem negro em sobreviver na França racista. Pode-se dizer que a obra faz um balanço de todas as formas de preconceitos enfrentadas pelos negros na Europa branca e “civilizada”. Das dificuldades de alojamento à relação com o trabalho e com as mulheres. O filme é desesperador. E seu desfecho não contempla qualquer atenuante ou conciliação sobre a luta do povo negro.

 

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