Olhar de Cinema 2019: ‘Casa’ e notas sobre outros filmes
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Olhar de Cinema 2019: ‘Casa’ e notas sobre outros filmes

‘Casa’, de Letícia Simões, fala do relacionamento entre mãe e filha. Também em pauta o chinês Pretérito Imperfeito e o indiano Levando Doces ao Cavalo

Luiz Zanin Oricchio

08 de junho de 2019 | 10h53


CURITIBA

A diretora Letícia Simões diz que “Casa” sempre foi o título de trabalho para seu filme. E terminou sendo o título definitivo. Este é mais um concorrente da mostra competitiva do Olhar de Cinema – são três nacionais, três docs, os três dirigidos por mulheres.

Voltemos à Casa. Bem, esse é mesmo o “tema” oculto nesse filme de procura, ou de reencontro, se se quiser, do seu lugar no mundo. Fala do relacionamento exasperado da diretora com sua própria mãe, com quem deseja se reencontrar. Por sua vez, a mãe também mantém um problemático relacionamento com a sua própria mãe, a avó da diretora.

Ou seja, são disfuncionalidades em cadeia, construídas de geração em geração. Nada de novo, em tese. Mas, convém lembrar Tolstoi, em Anna Karenina: “Todas as famílias felizes são iguais; as famílias infelizes o são cada qual à sua maneira.”

E, dessa maneira, articulando suas lembranças, da casa em Itaparica onde foi feliz, às fotos guardadas pela mãe como num relicário (os “arquivos implacáveis”), Letícia vai tecendo seu delicado rendado de relações familiares insondáveis e problemáticas. Como as de todos nós, mas com seus toques de singularidade: a árvore genealógica que se constrói com a antepassada escrava, o bisavô português, o cangaceiro egresso do bando de Lampião…Um mundo de machos, mas agora, no Brasil novo da quarta onda feminista, recentrado em figuras femininas. Passa por aí um pouco da genealogia complexa do povo brasileiro, heteróclito, violento, terno, e, não raro, negador de suas origens.

Casa é um filme que entrega muito mais do promete em seu início. Ao falar da singularidade de sua família, Letícia Simões faz com que nos lembremos da nossa própria, também complexa, contraditória, enredada, entretecida de ódios, rivalidades, ressentimentos e afetos. Contraditória configuração humana, a família, esta “viagem através da carne”, como dizia Carlos Drummond de Andrade.

Levando Doces ao Cavalo

Até agora o filme mais original do Olhar de Cinema, Levando Doces ao Cavalo, da indiana Anamika Haksar, se constrói através de sonhos. A diretora conta que o enredo se fez a partir de entrevistas realizadas com tipos populares da Velha Déli, vendedores de rua, batedores de carteira, prostitutas, pedintes…O que sonham? O resultado se transforma numa trama picaresca, que tem por centro um punguista que se faz passar por guia turístico (o ótimo ator Rabindra Sahu, que está em Curitiba). A narrativa é circense, debochada. O visual, rico e surrealista. O subtexto, uma declaração de amor ao povo, aos esquecidos da vida, aos que permanecem à margem, mas são o sal e a vitalidade de uma nação. Beleza de filme.

Pretérito Imperfeito

Também original é o chinês Pretérito Imperfeito, da chinesa Shengze Zhu. Ela recolhe vídeos da internet, escolhidos entre as transmissões em streaming feitas por usuários. De acordo com a diretora, em 2017 mais de 422 milhões de chineses fizeram transmissões em streaming pela rede. Bem, é, por um lado, um grande e caótico painel de um país oculto, submerso sob o gigante económico, que se revela na rede. Por outro, também é um pátio dos milagres, no qual a estranheza e não raro a miséria passam a ser “monetizadas”, pois quanto mais bizarro for o caso, mais as plateias virtuais parecem dispostas a contribuir em “Tiger bits”, que suponho ser uma moeda virtual. É um Mondo Cane dos nossos tempos, curioso, feérico, inquietante, mas que, depois de algum tempo, cansa demais.

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