Olhar de Cinema 2019: Banquete Coutinho
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Olhar de Cinema 2019: Banquete Coutinho

O ótimo filme de Josafá Veloso, sobre Eduardo Coutinho, abriu a 8ª edição do Olhar de Cinema, em Curitiba

Luiz Zanin Oricchio

06 de junho de 2019 | 14h25

 

O título promete e cumpre: Banquete Coutinho, de Josafá Veloso, serve a fina iguaria de uma conversa com um dos nossos maiores artistas, Eduardo Coutinho. Tem, como centro, uma longa entrevista gravada com o autor de Edifício Master e Jogo de Cena. Não se resume a isso. Constrói uma narrativa fluente através da inserção de imagens dos principais filmes de Eduardo Coutinho e também de imagens alheias, sabiamente escolhidas.

Destaco aqui o uso de cenas do clássico latino-americano Memórias do Subdesenvolvimento, do cubano Tomás Gutiérrez Alea. São, em especial, closes de seu protagonista, Sergio (Sergio Corrieri), burguês angustiado que decide permanecer em Cuba após a revolução. Não foi-se embora para Miami (como sua esposa), mas também não aderiu aos barbudos. Fica entre dois mundos e nenhum deles lhe pertence. Numa sequência clássica, Sergio é visto caminhando pelo Malecón (o calçadão à beira-mar em Havana), coberto por uma nuvem de respingos do mar agitado que bate contra as pedras. Parece um homem perdido.

Josafá entrevista Coutinho dois anos antes da trágica morte do cineasta (ele foi assassinado pelo próprio filho tomado por um surto psicótico). Mas Coutinho era já então alguém que sentia a presença da morte. E a encarava ora com humor, hora com amargor. Diagnosticado com enfisema pulmonar, decidira não parar de fumar. “Para quê? Eu só faço isso, fumo e filmo”. E, talvez, filmar seja uma espécie de ato desesperado para dar sentido à vida.

Bom, o sentido da vida talvez seja apenas este, viver. E, no caso do artista, como Coutinho, criar. Em meio ao ceticismo que o caracterizava, Coutinho criou uma obra extraordinária, moldando um instrumento que era só seu. A modulação desse instrumento se deu ao longo de toda uma trajetória. Daí o interesse adicional dessa disposição abrangente de Josafá Veloso, tomando o mais importante da obra de Coutinho, mas sem descuidar dos seus momentos mais raros e menos conhecidos. Por exemplo, cenas de ABC do Amor, do pouco valorizado O Princípio e o Fim e do amadorístico O Telefone, curta que ele fez quando estudante do IDHEC (atual Fémis), em Paris.

No entanto, Coutinho é sempre um mistério, e Josafá, ao mobilizar esses recursos todos, incluindo a “intertextualidade” cinematográfica, não tenta diminuir esse mistério, mas adensá-lo.

Como todo aquele que se propôs entrevistá-lo, também Josafá sofreu (um pouco) com o mau humor mitológico de Coutinho. Logo em seguida esse humor negativo se desfaz e Coutinho se transforma no mais encantador dos interlocutores, falando de cinema e vida com uma erudição abaixo da linha d’água, que aflora aqui e ali, digamos assim, cercada de pudor, como se ele tivesse vergonha de ser tão sábio e culto. É um homem tomado pela ausência completa de exibicionismo, raridade em nossa época narcísica.

Há outros aspectos dignos de nota neste filme que pede para ser revisto. A trilha, parece, é do próprio Josafá, que é músico. Empresta, me pareceu, uma densidade toda particular à obra. Há então presente toda uma arte da montagem (de Eugenio Puppo e Gustavo Vasconcelos), de arranjo de elementos díspares, para construir um todo que não se completa jamais.

E nem poderia, uma vez que existe outra questão em jogo subliminar – o da incompletude. (Não por acaso, lá pelas tantas, Coutinho cita Lacan). O que há é esse homem que se encanta como a criança que define Deus como “aquele homem que está morto”, como citando um Nietzsche que ela ainda não conhece. Ou com a (agora) famosa Dona Tereza, de Santo Forte, mulher favelada, que explica seu gosto pelo luxo e por coisas refinadas (como a música de Beethoven) como resultado de suas experiências em vidas passadas. Ou ainda aquele que ouve com atenção o camponês e suas reflexões sobre a finitude da existência.

Coutinho é um mundo. Só aos poucos vamos começando a compreendê-lo. E ainda falta muito. Este Banquete Coutinho nos deixa ainda com mais apetite para voltar a essa obra tão simples quanto estranha e tentar vislumbrar um pouco do mundo que nela pressentimos.

Não por acaso, o filme termina por uma das falas de Olga, As Três Irmãs, de Tchekov, peça em torno do qual Coutinho fez seu extraordinário e pouco compreendido Moscou. “O tempo vai passando, nós partiremos e seremos esquecidos para sempre. Esquecerão nosso rosto, nossa voz e também quantos éramos, porém o nosso sofrimento se transformará em alegria para aqueles que vierem depois de nós. A felicidade e a paz reinarão sobre a Terra e as pessoas se lembrarão com gratidão daqueles que vivem agora, e os abençoarão. Ah, queridas irmãzinhas, a nossa vida ainda não chegou ao fim! Viveremos!”

As últimas palavras de Olga ressoam no legado deixado por Coutinho:

“A música soa tão alegre, tão cheia de felicidade! E parece-me que logo saberemos por que vivemos, por que sofremos… Ai, se soubéssemos por quê. Se soubéssemos por quê!…”

 

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