Olhar de Cinema 2019: a pátria dos párias
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Olhar de Cinema 2019: a pátria dos párias

O brasileiro Sete Anos em Maio e o espanhol Entre duas Águas formam poderoso painel sobre os despossuídos do mundo neoliberal. Destaque também para o belíssimo A Portuguesa

Luiz Zanin Oricchio

09 de junho de 2019 | 11h56

Sete Anos em Maio

 

CURITIBA

Dia ativissimo ontem no Olhar de Cinema, em Curitiba, de modo que serei telegráfico.

O que mais me impressionou na programação foi um média brasileiro, Sete Anos em Maio, de Affonso Uchoa. Filme político e social, com eficaz invenção cinematográfica, fala da vida de um rapaz de periferia, Rafael, que interpreta a si mesmo.

Em primeira pessoa, Rafael fala das arbitrariedades policiais contra jovens de periferia (em geral negros), da falta de saída, do sufoco. Um filme para o Brasil atual. Para o que o Brasil, na verdade, nunca deixou de ser: um país discriminatório, injusto e cruel, agora pior ainda sob essa terrível gestão burocrático-evangélico-policial.

Uchoa lembra que o neoliberalismo e a teologia da prosperidade insistem em que a saída é sempre individual. Não existem saídas individuais para a vida em sociedade. Ou nos reinventamos em conjunto ou permaneceremos na lama.

A Portuguesa. Belíssimo filme de Rita Azevedo Gomes, que conta com roteiro da recém falecida Agustina Bessa-Luís tirada de um conto de Robert Musil, mesmo autor do clássico O Homem sem Qualidades. Procurei esse conto e, salvo engano, nunca foi publicado no Brasil. Existe uma edição portuguesa, junto com outros relatos. Originalmente, Musil publicou-o na coletânea Tres Mulheres. Longa em feitio clássico, de intensa beleza e rigor na filmagem, fala no casamento entre uma moça portuguesa e um nobre alemão, envolvido na batalha pelo bispado de Trento. Ar medieval e temas atuais como a guerra e a paz (que, para eles, era uma guerra pior ainda), conflito entre homem e mulher. A narrativa segue aquela tradição lusitana do relato sem pressa e minucioso, que alcançou seu ápice com Manoel de Oliveira. Nota: Rita Azevedo Gomes segue de Curitiba para São Paulo, onde haverá uma retrospectiva de sua obra no CCSP.

Entre Duas Águas, de Isáki Lacuesta. Em vídeo exibido antes da projeção, Lacuesta conta que a história é continuação de seu longa anterior, que mostrava a infância e a adolescência de dois irmãos andaluzes, de origem cigana, Israel e Francisco.

Agora eles chegaram à idade adulta. Francisco é taifeiro na marinha espanhola. O emprego é bom, mas às vezes fica seis meses longe de casa. Israel acaba de sair da cadeia. A mulher não o quer mais em casa. Vaga de emprego em emprego e, desesperado, às vezes pensa em se matar.

Os dois irmãos são jovens. Cada um deles tem três filhas pequenas. Mas os temperamentos são opostos. Um gosta da estabilidade; o outro não para em lugar nenhum, pois recusa-se a receber ordens.

Pela história de ambos, desvela-se uma Espanha distante dos cartões postais, feita de pobreza, dificuldades com emprego, preconceitos e paisagens longe do paradisíaco e mesmo da riqueza cultural que caracteriza aquela região, pátria do Flamenco.

Lacuesta observa que se trata de um filme de ficção, na qual os irmãos interpretam vidas que, de fato, se parecem muito com as suas próprias, mas que incorporam material inventado. Ficamos com a impressão de que suas vidas são exatamente aquelas mesmas e, se material ficcional existe, este entra apenas para reforçar o que é real, dolorosamente real.

Belo e pungente filme. Em conjunto com o brasileiro Sete Anos em Maio, nos leva a perceber que os despossuídos deste mundo formam um país à parte – a pátria dos párias no ilusório planeta afluente do neoliberalismo.

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