Olhar de Cinema 2018: Olhares diferentes
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Olhar de Cinema 2018: Olhares diferentes

Festival de Curitiba vai chegando ao fim, mas ainda há filmes para ver antes da premiação, que acontece hoje a noite

Luiz Zanin Oricchio

13 Junho 2018 | 11h03

 

CURITIBA

Vai chegando ao fim mais uma edição do Olhar de Cinema. Há ainda alguns filmes por ver neste último dia. A premiação acontece à noite, depois da exibição de Meu Nome É Daniel, de Daniel Gonçalves. Nada sei sobre o filme, a não ser que o diretor e também personagem sofre de uma doença rara. Veremos.

Talvez seja prematuro fazer um balanço mais completo do festival. Mesmo porque, conforme disse num dos primeiros textos, é praticamente impossível abarcar um festival desse porte em sua totalidade. Sempre é preciso fazer escolhas e estas dependem tanto da maneira como você entende cobrir o evento como da sua própria subjetividade, isto é, de suas preferências pessoais.

Claro, a mostra competitiva de longas é obrigatória e deve ser cumprida. Mas o que dizer das outras mostras, paralelas mas tão importantes quanto a dita “principal”? Vi alguns desses filmes, como O Saco sem Fundo, de Rustam Khamdamov, da Rússia, na seção Outros Olhares. O interessante é que o filme é baseado no mesmo conto de Ryonosuke Akutagawa que inspirou o clássico Rashomon, de Akira Kurosawa. O relativismo das versões de um crime está lá, numa estetização que me pareceu excessiva por parte de um diretor afinado com as artes plásticas. Ficou engessado, em sua beleza quase acachapante.

 Na mostra Novos Olhares, Mãe Preta, de Khalik Allah mostra uma Jamaica miserável, porém inspirada por uma exaltante alegria de viver. É um trabalho imersivo, com alguns momentos fortes e outros redundantes. Os restos coloniais do país confrontam-se com o desejo de superá-los com as próprias forças. O miserabilismo aparece em determinados momentos, junto com a imensa criatividade do povo. Faltou música, um dos pontos fortes da terra de Bob Marley.

Outro filme de que gostei nos Novos Olhares foi Smetak, dos brasileiros Simone Dourado, Nicolas Hallet e Mateus Dantas – o longa está também na programação do In-Edit. A ideia é submergir o espectador na obra do suíço-baiano Walter Smetak (1913-1984), que, com suas concepções musicais (e filosóficas) de vanguarda, influenciou de maneira decisiva a nova arte que se gestava no País nos anos 1950 e 1960. Foi um período de efervescência intelectual, um tanto imaginável na pasmaceira atual.  

O longa trabalha com depoimentos mas, em especial, com sons e imagens que remetem ao complexo mundo de Smetak, um compositor que criava instrumentos e escrevia livros. Sabe-se que, para ele, a música não era apenas um conjunto, harmonioso ou não, de sons, mas uma forma de atingir uma ascese, uma relação mais íntima com o universo. Um projeto ambicioso de conhecimento de si e do real através da música. Claro, para ele o sistema tonal, os doze sons da música ocidental, eram um limite e uma escravidão. Havia que romper esses grilhões e ele começou a parti-los por meio da música indiana, até chegar ao seu sistema de microtons, que expande a música de maneira quase infinita. Smetak tentou ampliar sua mente através da Eubiose e de outras filosofias místicas.

Parece claro que tal projeto flerta com o absoluto e talvez com o abismo. Vendo o filme, passou-me pela cabeça o personagem de Thomas Mann em Doutor Fausto, Adrian Leverkuhn, que, de outra maneira, tenta expandir a música, a mente e sua percepção do universo. Seu sistema é baseado no de um músico real, Arnold Schoenberg, criador do dodecafonismo. Como sabem os leitores de Mann, o músico alicerça seu projeto num pacto, à maneira de Fausto. Mas esta é uma digressão: Smetak, o filme, é ótimo.