Olhar de Cinema 2018: Jean Rouch
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Olhar de Cinema 2018: Jean Rouch

O Olhar de Cinema 2018 propõe uma (re)visão contrastada entre dois cineastas, Jean Rouch e Djil Diop Mambéty. Um olhar europeu e um olhar africano sobre a Africa.

Luiz Zanin Oricchio

11 Junho 2018 | 11h17

 

Cena de ‘Jaguar’, de Jean Rouch

 

 

CURITIBA

O Olhar de Cinema 2018 propõe uma (re)visão contrastada entre dois cineastas, Jean Rouch e Djil Diop Mambéty. Um olhar europeu e um olhar africano sobre a Africa. Trata-se de um debate interessante. Estou revendo os filmes, participei (como ouvinte) de um debate sobre a questão e, como eventual contribuição, agrego um texto que escrevi há mais de dez anos sobre Jean Rouch. Hoje talvez o escrevesse de forma diferente. Mas fica o registro para eventuais interessados. Foi publicado no jornal O Estado de São Paulo.

 

Há uma frase notável de Jean Rouch (1917-2004): “O cinema não se refere à verdade; ele instaura a sua própria verdade”. O lançamento de algumas das obras-primas desse realizador, misto de cineasta e etnólogo, pode confirmar a fertilidade do seu método. São dois longas-metragens clássicos, Jaguar e Eu, um Negro, com acréscimo do média Os Mestres Loucos, em dois DVDs da Videofilmes. Filmes que demonstram a imersão profunda de Rouch na África e na cultura africana.

Rouch filmava com consciência de que não estava registrando o “real”, como pensa ainda hoje certo documentarismo ingênuo. Desde Flaherty já se sabia que o registro do real pela câmera era um sonho impossível. Como fazer então? Como responde o documentarista e autor do livro Espelho Partido, Silvio Da-Rin, “Se a neutralidade da câmera e do gravador era uma falácia, para que tentar dissimulá-los? Por que não utilizá-los como instrumentos de produção dos próprios eventos, como meio de provocar situações reveladoras?”

Isso significa que a câmera é uma maneira de fazer as pessoas interpretarem os personagens que elas próprias são, em suas vidas. No caso de Jaguar (1954), Rouch tentava acompanhar o processo de migração de jovens que saíam do Níger em busca de trabalho na Costa do Ouro, atual Gana. Ele mesmo diz que, como era muito difícil fazer um documentário sobre as migrações, resolveu rodar um filme de ficção. Como de hábito, não havia um argumento e muito menos um roteiro. Rouch escolheu os “personagens” e seguiu-os, com sua câmera, por cerca de um ano, captando imagens, em geral sem som. Depois, no estúdio, pediu às mesmas pessoas que narrassem e comentassem o que iam vendo. O resultado é fantástico, e o próprio Rouch ficou fascinado com o espírito de improvisação dos africanos.

Se você assisti-lo como a um filme de ficção, verá uma narrativa picaresca, com os rapazes inventando mil maneiras de ganhar alguns trocados. São muito engraçados. E comoventes. E se enxergá-lo como um documentário social, terá pela frente uma narrativa da carência africana, com os personagens saindo pobres do seu país e voltando, tempos depois, com uma mão atrás da outra, como se dizia. Ao mesmo tempo, tudo isso é narrado com uma alegria incomum, como se a soma de tantas dificuldades fosse nada mais do que uma aventura feliz da juventude. Algo da proverbial alegria de viver africana passa por Jaguar e também pelos outros filmes.

Em Eu, um Negro (Moi, un Noir, 1958), rodado na Costa do Marfim, Rouch parte do pressuposto de que iria mais fundo “na verdade” se cada personagem interpretasse a sua própria história. Segue um grupo de amigos que vivem de biscates e que se atribuem nomes de atores. Um deles é Eddie Constantine; outro, o eterno gângster americano Edward G. Robinson. Este é o narrador, um Robinson negro, cheio de energia, malícia, gosto de viver. Um filósofo popular, em busca do sentido da existência (“A vida é assim, a vida não é nada…”, diz).

A seqüência final de Eu, um Negro figura nas antologias de cinema. Um longo travelling, com “Edward G. Robinson” e um companheiro, de volta ao seu país, o Níger, depois de ter vivido tantas aventuras e de deixar “Constantine” mofando numa cadeia da Costa do Marfim. O monólogo de Robinson já foi descrito como “fulgurante”. O termo não parece exagerado. Temos aqui a meditação de um jovem, negro e pobre, sobre seu próprio destino, que tem grandeza, pungência, e, sim, senso de humor.

A própria maneira de filmar de Rouch é extremamente inovadora. Voz off, câmera na mão, uma montagem bastante significativa e influenciada pelas pausas de filmagem que era obrigado a fazer por razões técnicas. Em um dos extras do DVD, ele diz que era forçado a parar o registro a cada 25 segundos para trocar o chassi do filme. “E essas pausas nos obrigavam a meditar sobre o que havíamos feito anteriormente”, diz. De qualquer forma, o resultado é fabuloso, transbordante de energia. Há um complexo sonoro e visual bem típico do cinema de Rouch e que inclui o fato de que nele se fala o tempo todo, mas nunca sob a forma de entrevista. Às vezes (mas muito pouco) é a voz do próprio Rouch, em off, situando o todo e explicando a situação. Essa é faceta, digamos, mais tradicional, mas quase por completo coberta pela outra narração – a do personagem sobre si mesmo.

Godard, no início de carreira, era fascinado pelo cinema de Jean Rouch, por Eu, um Negro e, em particular, pela famosa seqüência final. Ela seria uma das matrizes do primeiro longa do próprio Godard, Acossado (À Bout de Souffle, 1960) que ele, em princípio, pensou em chamar de Eu, um Branco (Moi, un Blanc), para estabelecer um diálogo explícito. Se você prestar bem atenção verá que há um parentesco bem grande entre o malandro africano que se denomina Edward G. Robinson e o Michel Poiccard, vivido por Jean-Paul Belmondo. Ambos são divertidos, comoventes, e profundos em sua aparência simplória. A experiência da vida lhes dá o que a educação lhes negou.