Olhar de Cinema 2018: Homens que Jogam
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Olhar de Cinema 2018: Homens que Jogam

'Homens que Jogam' e 'A Floricultura" dão seguimento ao festival, em sua mostra competitiva. Retrospectiva de Jean Rouch continua a encantar o público

Luiz Zanin Oricchio

12 Junho 2018 | 12h12

 

CURITIBA

Diante da relativa indiferença brasileira em relação à Copa do Mundo que começa nesta quinta-feira, vale a pena ver a recepção popular ao tenista croata Goran Ivanisevic, quando, inesperadamente, ele venceu o Torneio de Wimbledon em 2001. A cena faz parte do ótimo documentário Homens que Jogam, de Matjaz Ivanisin (Eslovênia/Croácia), longa da mostra competitiva do Olhar de Cinema.

A sequência revela toda a paixão popular que uma vitória no esporte pode despertar. No caso, um triunfo dos mais improváveis. Goran, vítima de várias contusões, havia caído para a 125ª colocação no ranking mundial. Foi convidado para Wimbledon. E foi vencendo, até chegar à partida final contra o australiano Patrick Rafter. A proeza é narrada por um treinador de tênis. E vemos imagens da chegada de Goran a Split, onde uma multidão enlouquecida o esperava.

Nem tudo é épico neste filme muito original. Mostra “esportes” inusitados como arremesso de queijos na Sicília ou disputas com lutadores untados de óleo na Sérvia. O tom é muitas vezes engraçado. E outras reflexivo, quando o diretor confessa que não sabe mais para onde levar o filme depois de algumas sequências. Vai do épico ao farsesco com muita facilidade.

Em todo caso, o “homo ludens”, em modalidades em geral pouco convencionais, aparece no filme em toda a sua plenitude. Assisti com muito prazer.

Também diferente é A Floricultura, do belga Ruben Desiére. Três jovens planejam (e executam) um assalto a banco, vizinho à floricultura do título. Eles são ciganos e, enquanto cavam o túnel que deve chegar à caixa-forte, conversam sobre o futuro e a discriminação que sofrem em vários países da Comunidade Europeia.

Bastante despojado, o longa só mantém  praticamente em cena os rapazes, com seus medos, esperanças e a determinação em se apoderar do conteúdo dos cofres particulares sob a guarda do banco. Há toda uma reflexão sobre o dinheiro que acompanha a conversa. Muitas vezes, o despojamento do cenário lembra uma situação teatral. O trabalho de som, criando tensão, é muito bom. E, embora não seja genial, o longa coloca-se na contracorrente do “filme de assalto” convencional.

O foco no cinema de Jean Rouch prosseguiu com as exibições de Pouco a Pouco, A Punição e Pirâmide Humana. São filmes excepcionais. O espaço africano entra em cena em Pouco a Pouco e Pirâmide Humana, enquanto o parisiense ganha relevo em A Punição, espécie de continuação de Crônica de um Verão, exibido anteriormente.