Olhar de Cinema 2018: ‘Hienas’ e outros caminhos
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Olhar de Cinema 2018: ‘Hienas’ e outros caminhos

Cobrir um festival múltiplo como o Olhar de Cinema é um pouco como entrar num parque temático gigantesco. Impossível visitar tudo, então você tem de escolher o seu percurso.

Luiz Zanin Oricchio

08 Junho 2018 | 10h39

“Hienas”: a visita da velha senhora

CURITIBA

Cobrir um festival múltiplo como o Olhar de Cinema é um pouco como entrar num parque temático gigantesco. Impossível visitar tudo, então você tem de escolher o seu percurso.

O meu, ontem, abrangeu um filme da competição, o documentário Boa Sorte, de Ben Russell, outro doc, este da Mostra Paranaense, Euller Miller Entre Dois Mundos, de Fernando Severo, Hienas, do senegalês Djibril Diop Mambéty, e uma seleção de curtas de Alice Guy-Blaché, pioneira do cinema. Foi uma visita um tanto exaustiva, porém agradável.

Hienas é um clássico do cinema africano. Mambéty (1945-1998), em Hienas (1992), seu último longa, inspira-se na peça A Visita da Velha Senhora, do suíço Friedrich Dürrematt. Ambienta-se em Colobane, terra natal de Mambéty, que assiste ao retorno da vingativa Linguère Ramatou (Ami Diakhate). Ela foi expulsa do vilarejo no passado, tornou-se prostituta, enriqueceu à loucura e agora volta, coberta de ódio, glória e ouro. Traz uma fortuna para a vila estagnada, porém exige, em troca, a pele do homem que, segundo ela, a desgraçou, Draman Drameh (Mansour Diaf).

Mambéty dá tom mítico e um tanto surrealista à narrativa, que alegoriza a África pós-colonial e seu caótico ingresso no capitalismo. As imagens são estupendas em torno de uma trama de sentido sacrificial para o acesso à riqueza. Sacrifica-se uma cultura em nome do…progresso? Em nome do quê, mesmo? O filme é brilhante.

Boa Sorte, de Ben Russell, é um documentário de observação sobre a vida de pessoas que se dedicam ao duro ofício da mineração. Filma em duas locações, uma mina de cobre na Sérvia e uma de ouro, no Suriname. O filme é interessante com sua proposta de imersão mais sensorial que verbal naquela dada realidade. Os planos se estendem muitas vezes em tempo real, por exemplo quando desce o elevador às profundezas de uma claustrofóbica mina de cobre. É um filme paciente e que, em contrapartida, exige paciência do espectador. Mas vale.

Em Euller Miller, entre dois Mundos, o cineasta paranaense Fernando Severo acompanha a vida do personagem-título, um rapaz indígena que estuda Odontologia na Universidade do Paraná. Descobre um mundo ainda pouco explorado. Conhecemos alguma coisa das cotas à população negra, mas quase nada sobre cotistas indígenas. Antes da apresentação, Severo falou sobre o atentado que era a anunciada suspensão das Bolsas de Permanência dessas populações na Universidade. Significaria impossibilitar que essas pessoas, que chegam com tanta dificuldade ao curso superior, continuem seus estudos. Enfim, mais uma etapa no desmonte progressivo da Nação, obra obstinadamente perseguida por este governo.

O interessante do filme é mostrar a existência de um personagem situado entre duas culturas. De um lado, alguém que procura observar a tradição do seu povo. De outro, um jovem como outro qualquer, com as preocupações e aspirações de alguém de sua idade. O aspecto transicional começa pelo nome. Foi dado em homenagem aos jogadores Euller e Miller, ídolos do pai do garoto. Ele é originário de Dourados, no Mato Grosso, e veio estudar em Curitiba.

Por fim, no final do trajeto, os curtas de Alice Guy Blaché (1873-1968), pioneira do cinema, que participou em cerca de mil (!) filmes ao longo de sua carreira e é redescoberta agora, com a atual preocupação em se prospectar o papel da mulher em diversas áreas, inclusive na machista indústria cinematográfica. Na seleta de oito desses filmes, nota-se um espírito inventivo e cheio de bom humor. Num deles, Alice usa elenco totalmente negro. Em outro, brinca com o mito do Oeste, fazendo deste o palco de educação de um homem excessivamente “delicado” para se candidatar à mão de uma moça em Nova York. A apresentação do curador Aaron Cutler destacou o fato de Alice ser considerada a “inventora” da narrativa ficcional no cinema, ela que foi contemporânea de Méliès e esteve na sessão inaugural dos Lumière, no Boulevard des Capucines, em 1895.

Como se vê, a primeira viagem pelo Olhar de Cinema se deu no espaço e no tempo.