Olhar de Cinema 2016: primeiros concorrentes
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Olhar de Cinema 2016: primeiros concorrentes

Luiz Zanin Oricchio

10 de junho de 2016 | 12h30

antonia

 

 

Curitiba – Entendam essas notas pelo que que são: rascunhos, anotações, primeiras impressões. Escritas às pressas, na correria de um festival que oferece filmes atraentes o dia inteiro. Enfim, este é um caderno de notas.

Na abertura, vimos Operação Avalanche, de Matt Johnson, com o próprio diretor como um dos intérpretes. Filme legal sobre o tempo da Guerra Fria, com a notícia de que os soviéticos teriam um infiltrado no Projeto da Apolo 11, que levaria o homem à Lua. Filme de cinéfilo, brinca com Dr. Fantástico, de Stanley Kubrick, ironia negra sobre o holocausto nuclear. Boas cenas de ação, roteiro inteligente, meditação (light) sobre o poder do cinema de criar realidades. Nem sempre realistas.

Sobre Anna, inqualificável (no melhor sentido do termo) opus de Alberto Grifi e Massimo Sarchielli, já me referi no post anterior. Basta acrescentar que esta peça cinematográfica de intervenção extrapola os limites do cinema direto e do cinéma-vérité.  Para dizer o minimo. 

Antonia, de Ferdinando Cito Filomarino (Itália) abriu a competição com sua cinebio da poeta italiana Antonia Pozzi. O filme começa meio careta, com um academicismo um tanto pesado. Mas melhora à medida que avança e passa a respirar melhor. Mostra uma garota talentosa, dotada para as letras e infeliz no amor. De família burguesa, apaixona-se pelo professor de grego, um pobretão idealista. O pai é contra. E assim segue a vida. Há um ponto de virada, quando submete uns poemas ao seu orientador de tese. Ele diz que falta a ela experiência de vida. Antonia decide obtê-la de maneira acelerada. Faz amor, pratica alpinismo, observa operárias na saída da fábrica. O filme melhora. E a escrita da moça também. Mas nem assim será feliz. Suicidou-se aos 26 anos e nunca publicou um livro em vida. Hoje e considera no mesmo patamar de um Eugenio Montale. Mas o que sabemos nos da cultura italiana no Brasil? Acabei seguindo a história com interesse, a despeito da limitação estética.

Em seguida vi o documentário O Vento Sabe que Volto para Casa, de José Luis Torres Leiva. Documentário ou ficção? Como dizer? Vale-se de um personagem que vai à ilha chilena de Meulin para investigar a história de um casal desaparecido 30 anos atrás. É um mergulho na cultura da costa chilena, com seu rendilhado de ilhas e costumes diversos. Descobre, por exemplo, que a tal ilha é dividida em duas por um rio. De um lado, vivem os descendentes de indígenas, de outro, os mestiços. Não se misturam. Ou o fazem com dificuldade, pois as famílias mostram-se intolerantes com as relações entre indivíduos das duas comunidades. Será isto o que aconteceu com João e Maria, o casal que sumiu? Sob esse pretexto, o filme refaz e revela um modo de vida bastante particular dos insulares. Lembra, em alguns aspectos, Fogo no Mar, de Giancarlo Rosi, o vencedor do Festival de Berlim deste ano com seu estudo da Ilha de Lampedusa, na costa siciliana.

Daqui a pouco vou ver O Manuscrito de Saragoça, outro filme-fetiche que só conheço de ouvir dizer. Pequena história particular. Nos anos 1980 eu fazia uma disciplina de doutorado na USP chamada Sociologia da Literatura Fantástica. Ministrada por ninguém menos que o professor Ruy Coelho, da turma da revista Clima e do Suplemento Literário do Estado de S. Paulo. Foi um dos melhores professores que tive em minha vida. Ruy era apaixonado por literatura fantástica e nos introduziu à obra estranha de Jan Potocki, O Manuscrito Encontrado em Saragoça, no qual o filme de Wojciech Jerzy Kas se baseia. Vamos conferir.

 

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