Olhar de Cinema 2002: Paterno, a classe dominante em crise
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Olhar de Cinema 2002: Paterno, a classe dominante em crise

Luiz Zanin Oricchio

06 de junho de 2022 | 11h25

 

CURITIBA – Paterno, de Marcelo Lordello, escava em território pouco explorado pelo cinema brasileiro – a classe alta. Tudo gira em torno do personagem principal, Sérgio, vivido por um extraordinário Marco Ricca. Ele, junto com o irmão, é sócio de uma incorporadora imobiliária. Tocam o projeto de uma incorporação imobiliária numa área de preservação. Têm dois desafios pela frente. Um, comprar a preço de banana as pequenas propriedades espalhadas pelo terreno. Dois, “trabalhar” junto à câmara dos vereadores para que a legislação seja alterada e possibilite a construção de edifícios altos no local. Como se sabe, o poder de convencimento das construtoras é muito grande. Sua “retórica” é poderosa, como atestam as metrópoles brasileiras, sistematicamente destruídas pela especulação imobiliária. 

Acontece que Sérgio pouco tem de um incorporador típico. Quer dizer, tem e não tem. É um pouco predador e autoritário, como convém ao modelo. Porém, é também cheio de dúvidas e insegurança. O filho quer seguir a carreira de arquiteto, mas à sua maneira. O pai, que ergueu a empresa, encontra-se à morte, no hospital. Seu irmão (Nelson Baskerville) considera-se o chefe da empresa, pois foi designado pelo pai. 

E há a questão das casas a serem compradas e depois derrubadas para que o condomínio seja erguido. Cada negociação é difícil. E, para isso, um dos moradores (Thomás Aquino) se oferece como “infiltrado” para convencer os recalcitrantes. A troco de uma gorda porcentagem, claro. 

Tudo vai empurrando Sérgio para uma crise profunda. Que, porém, não explode. Ou tarda a explodir, pelo menos da maneira convencional. 

Há aí algo a ser notado e que não está propriamente no enredo, mas na maneira como ele é transformado em filme. É uma questão do tempo. Da mise-en-scène. Tudo se desenvolve sem pressa, com um senso de detalhismo muito profundo. Por exemplo, na sequência inicial, Sérgio chega de carro ao Bairro de Brasília Formosa, onde pretende edificar sua obra. Entra num imóvel, como se fosse um comprador comum, em busca de uma casa para morar. O proprietário (Wilson Rabelo) começa a lhe contar como construiu aquele lar, por etapas, erguendo mais quartos à medida que a família crescia. Como lá criou filhos, netos. Aquilo lá é um lar, com história, com gente de carne e osso, lá vivendo, geração após geração. Para o incorporador é apenas um estorvo, uma coisa sem alma, paredes a serem derrubadas para abrir mais um espaço para a futura construção. Tudo demora – ou melhor – tem o tempo justo para que essa duplicidade se instale na percepção do espectador. A força destruidora do capital x a história humana depositada numa moradia. 

À medida que a trama se desenvolve mais questões vão surgindo. E mais pontas soltas vão sendo deixadas, fazendo que quem assiste ao filme se pergunte: “mas como ele (o personagem, o diretor) conseguirá atá-las até o final? Pergunta vã porque a estratégia é essa mesma, apresentar uma crise, aprofundá-la e deixá-la em suspenso. 

Essas crises vão se alargando. Sérgio indispõe-se com a mulher, com o filho, com o irmão. Assiste à agonia do pai e se pergunta sobre o legado daquele homem. Após sua morte, tenta resolver uma questão pendente do passado do pai e também sai chamuscado. Mas a descoberta o ilumina, embora não o suficiente para induzir uma transformação radical e duradoura. Tudo o que era impasse assim permanece. 

Inclusive na cabeça do espectador, ou, pelo menos, na do espectador que escreve estas linhas. Saí do cinema com a sensação de ter visto um grande filme, mas também um pouco incomodado, e sem saber exatamente por quê. 

De certa forma, ao vermos Paterno, o ligamos a outro grande filme do cinema brasileiro, O Invasor, de Beto Brant. E essa ligação tem sua razão de ser. Também em O Invasor era questão da especulação imobiliária, também Marco Ricca era um dos sócios da incorporadora, também havia um “alienígena” que se plantava na trama (Paulo Miklos) e tudo transtornava. Mas as semelhanças, se existem, são de superfície, de conteúdo manifesto, porque o espírito das obras é diferente em essência. O Invasor é mais explosivo, direto, à sua maneira catártico. Paterno nega-se a catarse de maneira sistemática. Mantém-se e mantém-nos em suspenso. 

Essa suspensão é fruto do trabalho com o tempo. Tempo para que todas as sequências sejam expostas, sem necessariamente se completar. Tempo para que os fios sejam soltos e assim permaneçam. Tempo para que tudo seja impasse e inconclusão. Sem catarse. Sem alívio. Sem lição de moral. Sem exemplo regenerador. No impasse, porque o “punctum” do filme é a cegueira do personagem. Em relação à vida e a si mesmo. 

Dessa forma, tudo fica em aberto, e as conclusões, se as houver, são por conta do espectador. A mim, pareceu um filme ideal sobre o Brasil contemporâneo, em que tudo é impasse, tudo encontra-se aberto e sem solução à vista. Entramos num túnel do tempo paradoxal, que dá tanto para o passado como para o futuro, em que o governo atual representa apenas sua versão mais mórbida, porque atrelada ao instinto de morte mais primitivo do capitalismo. 

De resto, o que buscamos, sem necessariamente encontrar, é a face humana de Sérgio, esse “homem sem qualidades” (para lembrar o romance de Musil). Sérgio (talvez não por acaso) tem o mesmo nome do personagem de Sergio Corrieri na obra-prima do cinema latino-americano Memórias do Subdesenvolvimento, de Tomás Gutiérrez Alea, um burguês órfão de sua classe na voragem da revolução. 

No plano final de Paterno, a câmera busca o olhar de Marco Ricca, na situação simbólica em que se encontra encalacrado. Lembra, pelo menos para mim, o olhar de Jean-Louis Trintignant no plano final de O Conformista, de Bernardo Bertolucci. O homem sem qualidades, fascista quando a ordem for fascista, antifascista quando a maré virar. Um olhar para a câmera, para o olhar do espectador e que desafia: “Decifra-me”. 

 

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