Olhe pra Mim de Novo
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Olhe pra Mim de Novo

Luiz Zanin Oricchio

24 de maio de 2013 | 18h35

 

A história de Sillvyo Lucio é de uma improbabilidade total. Nasceu mulher, era lésbica mas busca operação transexual que o/a transforme em homem. Os gêneros se misturam e nem o flexível idioma português parece suficiente para abarcar-lhe a complexidade. Em todo caso, Sillvyo, para arremate, vive no interior do Ceará, em pequena cidade da zona rural, lugar de costumes ancestrais, tradicionalista e machista.

Tal é o personagem que a dupla Claudia Priscilla e Kiko Goifman resolve retratar neste Olhe pra Mim de Novo. O título, claro, é um apelo ao entendimento, à compreensão. A sociedade brasileira, conservadora em seu todo, em que pesem fantasias de liberalidade tropical, etc, tem aceitado muita coisa. A união civil homossexual já é uma realidade. Mas muito caminho há de ser feito para a aceitação plena da diversidade sexual. Se é que acontecerá algum dia, dado o tabu envolvido.

E, nesses termos, o caso de Sillvyo Lucio é um exemplo levado a quase limite. Ele não apenas aspira à cirurgia de mudança de sexo, como deseja, antes que ela seja feita, ter um filho biológico com sua companheira, Widna. Esta é um caso à parte. Ela diz que, com Sylvio, é heterossexual, já que Sylvio é homem. Mas, caso se separassem, seria lésbica, porque gosta de mulher. Enfim, o plano da dupla seria, de alguma forma, mesclar os óvulos de cada uma para sintetizar um óvulo comum e depois o fertilizarem com espermatozoide buscado num banco de esperma. Obviamente, trata-se de uma fantasia genética, conforme explica uma médica a Sillvyo. Mas ele não desanima e segue sua busca.

E é uma busca tanto no sentido metafórico quanto literal, já que o documentário se estrutura como um road movie. Em seu périplo pelo Nordeste, acompanhado pela câmera, Sillvyo Lucio encontra outros personagens. Por exemplo, um grupo gay em uma das cidades. Passam também por uma clínica para pessoas portadoras de uma doença genética degenerativa. Conversam com a mãe cujo filho foi trocado na maternidade. Sillvyo é colocado para dialogar com essas pessoas e, aos portadores da doença genética, diz que, como elas, é discriminado pela sociedade. Essas incursões talvez tirem um pouco da força do conjunto.

No entanto, a energia do filme vem justamente do personagem. Ao narrar uma vida que, como se pode adivinhar, é feita de dificuldades desde a infância, Sillvyo não se permite um único instante de autopiedade. Assume sua sexualidade assim como encara os problemas, preconceitos e agressões que ela acarreta. De frente. Esse é o ponto forte do documentário, seu cerne vital, sua melhor substância. Ao confrontar a trajetória de Sillvyo com a de personagens também sofridos, a dupla de realizadores pode ter tentado universalizar a questão da intolerância. Cabe ao espectador julgar se essa decisão foi acertada. A meu ver enfraquece um pouco o andamento do filme.

Mas nunca a ponto de comprometê-lo. Porque Sillvyo é um exemplo e tanto de luta quixotesca contra o obscurantismo (como qualificar de outra forma quem se arvora a legislar sobre o desejo alheio?). E também por um motivo que merece ser notado, a alta qualidade cinematográfica presente na narrativa dessa história singular.

Não se trata de embelezamento artificial, de uma espécie de pacote de primeira qualidade destinado a embalar uma história indigesta para parcela do público. Não. A forma aqui não é gratuita e compõe o personagem, tanto quanto aquilo que ele fala, ou que falam dele. Por isso, durante o percurso, Sillvyo é frequentemente filmado só, naquelas estradas desertas do semiárido. São imagens pungentes, que se incorporam à sua fala ou aos telefonemas que deixa na caixa postal da parceira. Diga-se o que se quiser, mas seu percurso é solitário e, de certa forma, desesperançado. O ser humano, cheio de energia, preso a um corpo que não sente como seu, alterna estados de espírito. Ora eufórico, ora reflexivo. No entanto, parece radicalmente só, como no momento mais tocante, quando se encontra com sua filha biológica. O diálogo entre eles, ou elas, além de revelador, é de cortar o coração. De quem o tiver, claro.

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