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Ócio com dignidade

Luiz Zanin Oricchio

22 Fevereiro 2007 | 17h23

Tirei essa folga de carnaval como um presente para mim mesmo, e me dei aquilo que os antigos chamavam de otium cum dignitate. Cerquei-me de livros, boa música de jazz e instalei-me numa rede. Li. Ouvi. Dormi. Das muitas leituras, queria destacar uma, um livro magnífico que ainda levo pela metade (quero que dure): Os Detetives Selvagens (Companhia das Letras, R$ 59,50, 624 págs.), de Roberto Bolaño. Chileno, morto no ano passado na Espanha, Bolaño passou boa parte da vida no México. E é lá, na caótica Cidade do México, que se ambienta a história desse grupo de jovens poetas. Um “movimento” literário estranho, o realismo visceral, que se articula em farras, discussões, iniciação sexual, tipos exóticos, jovens intelectuais misturados com o bas fonds da capital.

A forma é inquietante. Na primeira e na terceira parte, o que lemos são as páginas do diário de um dos personagens, o aprendiz de escritor Juan Garcia Madero. No miolo, uma série de algumas dezenas de depoimentos sobre dois dos protagonistas, Ulises Lima e Arturo Belano (provável alter ego de Bolaño) e sua busca por uma poeta mexicana Cesárea Tinajero, que morreu jovem e não deixou obra publicada.

A estrutura é quebradiça, um mosaico, sem compromisso com a linearidade. Os Detetives Selvagens lembra (pelo menos me lembrou) um livro fundamental da nova literatura latino-americana, Rayuela, O Jogo da Amarelinha, de Júlio Cortázar. Nos dois temos um painel da nossa América Latina fragmentada, embora metade de Rayuela se passe em Paris. São dois momentos distintos. Cortázar fala do final dos anos 60; Bolaño vem dos anos 70 aos 90. Em ambos, porém, lateja esse desejo de compreender o todo, hoje tão fora de moda. Ao mesmo tempo, aceitam que essa compreensão só será possível através dos fragmentos, o que não torna esses romances menores, muito pelo contrário. São textos que incorporam o caráter onívoro da forma romanesca. Devoram tudo, deglutem tudo, tudo passa a fazer parte do estar-no-mundo do escritor, do sexo à política. Inclusive, e talvez principalmente, está em questão a forma romanesca.

Enfim, é a vida contaminando e determinando a forma literária. O romance “conta” e, ao mesmo tempo, volta-se sobre si como elemento de reflexão. Quando terminar a leitura, talvez volte a comentar. Estou adorando, mas quero ler devagar.