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Obra-prima de Bergman em debate

Luiz Zanin Oricchio

15 de julho de 2008 | 16h01

Hoje, às 19 h, no ciclo Bergman 90 Anos, promovido pelo HSBC Belas Artes, será apresentada aquela que, para muitos, é a obra-prima do mestre sueco – Gritos e Sussurros. Após o filme, às 21 h, haverá debate com o crítico do Estado, Luiz Carlos Merten, que recentemente esteve na Suécia, acompanhou as atividades da Semana Bergman, e visitou o refúgio do artista, na Ilha de Farõ. Bergman viveu muitos anos em sua ilha, lá morreu e nela está enterrado. Certamente, Merten terá muito o que contar sobre sua visita ao santuário dos bergmanianos do mundo todo. E, também, claro, sobre o filme em si, um dos mais impressionantes da história do cinema.

E é sobre morte e a vida, sobre as contingências mais básicas, e profundas, da existência, de que trata Gritos e Sussurros, um ensaio em cores sobre a finitude humana. O próprio Bergman gostava de descrever a gênese do filme. Ele havia sonhado com uma cena que não compreendia. Mulheres vestidas de branco contra um fundo vermelho. O que isso queria dizer? Pensou, pensou, até matar a charada, por assim dizer. Eram irmãs. Estavam juntas, e tristes, porque uma delas ia morrer. As outras duas lhe faziam companhia, ajudavam-na na passagem…

O vermelho é a cor do útero; é também a cor do amor e da morte. Tudo isso vem junto. Há um momento muito bonito, entre todos do filme, quando a moribunda é acolhida no seio de uma doméstica, Anna, formando ambas uma imagem da Pietà. O que se pensa, vendo-se essa cena e outras? Na morte, regressa-se a alguma parte, anterior ao nascimento? Ou o que se contempla é apenas o Nada? Essa angústia existencial flutua em todas as passagens de Gritos e Sussurros (1971). Ela remete a obras anteriores de Bergman, que ecoam uma vez e outra essa mesma pergunta. Ela está formulada, por exemplo, em O Sétimo Selo, de 1957, quando uma jovem vai ser queimada como bruxa (Maud Hansson). É quando o escudeiro de Antonius Block (Max Von Sydow), Jons (Gunnar Bjõrnstrand), percebe o desespero no olhar da moça, que parece ter compreendido que é o Nada que a espera depois do martírio.

Em Gritos e Sussurros, a contundência dessa reflexão sobre a morte se desdobra em outras direções. Enquanto Agnes (Harriet Andersson) agoniza, as irmãs Karin (Ingrid Thulin) e Maria (Liv Ullmann) rememoram, em flash-back, a infância e a juventude das três. E, então, o filme se abre para outra das questões prementes tratadas por Bergman – a morte da alma, a morte em vida, causada pelo egoísmo, pela secura dos sentimentos, pela falta de compaixão, pelo fechamento do ser humano em si, ato de autodefesa, sem consciência da armadilha existencial que isso representa para o indivíduo. Esse filme extraordinário apresenta essas questões na dramaturgia precisa que foi a de Bergman, diretor vindo do teatro e que não temia repetir na tela o que pensara no palco. Pelo contrário, pela radicalização da realização teatral, conseguia, sobretudo nas obras de maturidade, um resultado cinematográfico inigualável. Assim, o trabalho rente à interpretação das atrizes parece notável, bem como a escolha psicológica das cores dos cenários e dos vestuários. Nada é gratuito; tudo é pensado para atingir o espectador em seu íntimo. Grande arte.

Fechando o ciclo, amanhã e depois serão exibidos Da Vida das Marionetes (1980), e A Fonte da Donzela (1959), sempre às 19 h.

Da Vida das Marionetes foi feito em 1980, na Alemanha, onde o diretor foi viver para se refugiar do fisco sueco. É o desdobramento de uma seqüência de Cenas de Um Casamento quando um casal doentio, Peter e Katharina, vai visitar o par central, formado por Liv Ullmann e Erland Josephson. O par passa o jantar todo a se agredir com comentários cruéis e destrutivos. Serve como uma espécie de espelho para o casamento em tese feliz de Liv e Erland. Na verdade, o jantar, e os convivas indesejáveis, funcionam como desencadeadores de uma crise já latente. O roteiro de Cenas de um Casamento foi republicado pela Editora Letras Brasileiras, com prefácio de Luiz Carlos Merten e nova tradução de Jaime Bernardes. Dez exemplares serão sorteados após o debate.

Já A Fonte da Donzela, de 1959, dá continuidade à exploração do imaginário medieval, iniciada por Bergman com O Sétimo Selo dois anos antes. Na história, uma garota é estuprada e morta por dois pastores. Sem o saber, os assassinos pedem abrigo na casa dos pais da moça assassinada. O filme discute a questão da vingança numa Suécia do século 14 ainda dividida entre o paganismo e o cristianismo. Como sempre, Bergman busca expor as facetas contraditórias da alma humana, dividida, muitas vezes, entre impulsos incompatíveis. Uma de suas grandezas, como artista, estava em não tentar conciliar de forma artificial o que é inconciliável. Não há final apaziguante em Bergman. Não seria ético, segundo ele.

Serviço

Bergman – 90 Anos. Hoje, Gritos e Sussurros, seguido de debate. Amanhã, Da Vida das Marionetes. 5.ª, A Fonte da Donzela. HSBC Belas Artes. Rua da Consolação, 2.423, tel. 3258-4092. 3.ª a 5.ª, 19 h.R$ 8 e R$ 16. Até 17/7

(Caderno 2, 15/7/08)

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