Oba-oba, Mr. Barack Obama
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Oba-oba, Mr. Barack Obama

Luiz Zanin Oricchio

05 de novembro de 2008 | 14h30

obama

Claro que virá, já está vindo, um verdadeiro tsunami de asneirol, frases feitas, badalações, etc. em torno de Barack Obama. Eu mesmo já ouvi coisas sobre as quais convém silenciar. E também não quero dar minha contribuição para essa enxurrada de obviedades. Gostaria apenas registrar duas coisinhas, e da maneira a mais breve possível:

1) A repercussão simbólica da eleição de Obama é notável. Quem cresceu testemunhando a selvageria do racismo da sociedade norte-americana sabe do significado de um negro chegar à presidência. Significado em nível mundial, dada a amplitude de tudo o que acontece no centro do sistema, na Roma dos tempos modernos. Tem uns aspectos interessantes aí, como a predileção da mãe de Obama pelo filme do francês Marcel Camus, Orfeu Negro, rodado no Rio de Janeiro e interpretado em parte por brasileiros, como Breno Mello e Ademar Ferreira da Silva. Era o filme da vida da sra. Obama e ela transmitiu o gosto ao filho, que parece um homem vindo da diversidade e interessado na diversidade. Isso é ótimo.

Além disso, juntando esse fato maior a fatos menores, como a presença de Lewis Hamilton na Fórmula 1, outro reduto branco, chegamos à conclusão de que, num mundo que caminha para o desastre, pelo menos um fator positivo se destaca – o racismo recua. Não digo que tenha acabado, longe disso. Mas recua. Sou tentado a apostar que dentro de algumas gerações a cor da pele não terá qualquer importância para a imensa maioria das pessoas. Racistas sempre existirão, mas como anomalias sociais, meras curiosidades, como vírus inativos, que são conservados apenas para que não se elimine uma espécie da Natureza. Então, pelo menos nesse ponto, a humanidade progride. Já, em outros…

2) O mundo das coisas reais, que tem a ver, sim, com o mundo simbólico (as coisas não se separam), mas guarda uma lógica própria. Obama terá dois imensos pepinos a descascar – a retirada do Iraque e a administração da crise. A saída do Iraque teria de acontecer de qualquer jeito, mas os militares gostam de fazê-lo de maneira progressiva, para que não pareça debandada. É preciso salvar as aparências, disso que começou como agressão unilateral e injustificável e transformou-se em desastre histórico. E, além de fiasco moral, fato trágico, já que custa vidas dos dois lados.Sobretudo do lado de lá, do Iraque.

Quanto à crise, é preciso dizer que as coisas têm uma lógica tão própria que até o atual governo, fundamentalista de mercado, abriu mão de suas convicções religiosas para tentar “salvar o sistema”. Quer dizer: o Estado está entrando pesado na economia para cobrir os buracos cavados pelos especuladores. Talvez o capitalismo altere um pouco seu rumo depois dessa crise, mas isso independe de Obama ou McCain. Por outro lado, não será Obama quem deterá (mesmo que quisesse) o caráter expansionista do capitalismo americano, porque este tem uma dinâmica que lhe é própria. Os Estados Unidos são o país mais poderoso do mundo, militar e economicamente, e Obama não foi eleito para alterar esse estado de coisas. Muito pelo contrário, e se existe uma verdade na ordem do mundo é que ninguém ateia fogo às próprias vestes. Os Estados Unidos são a única superpotência e desejam manter esse status. O que nós, europeus ou chineses pensamos a respeito lhes interessa muito pouco.

Claro que existe uma margem de manobra para a política e ninguém está dizendo que Clinton, Carter ou Obama sejam iguais a, digamos, os dois Bush ou Nixon. Há estilos, opções, modos de agir que podem, sim, fazer muita diferença na ordem das coisas. Acontece que a história tanto depende dos indivíduos, por poderosos que sejam, quanto de circunstâncias que vão além deles.

Quem pensa assim não se ilude com fantasias românticas, embora o momento seja muito inspirador e todos nos sintamos tentados por elas.

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