O verão de Bergman
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O verão de Bergman

Bergman dizia jamais ter conhecido uma sueca tão sensual como Harriet Andersson daquela época.

Luiz Zanin Oricchio

28 Junho 2018 | 18h38

Dando um tempo na Copa do Mundo, fui ontem à abertura da Mostra Centenário de Bergman, no Cinesesc.

Muita gente por lá, muitos conhecidos e outros não, mas todos amigos, reunidos na cinefilia. Havia torcedores com camisa amarela (que, por favor, não é privativa dos coxinhas), contentes com a vitória do Brasil sobre a Sérvia. Coquetel, muito papinho, etc.

E, por fim, uma cópia restaurada, estalando de nova, de Monika e o Desejo que, segundo Godard, contém “o plano mais triste da história do cinema”.

Qual é ele? A jovem Monika, depois de passado “seu verão”, olha diretamente nos olhos do espectador, com aquela melancolia que só os jovens parecem ter (a dos velhos é de outra ordem).

Estupendo filme! O “verão” do amor entre Monika e Harry dura pouco. Sobra depois a triste construção do cotidiano, uma criança que vem por acaso e toda a aspiração de Monika em “viver a vida”, seja lá o que isto signifique.

Tenho um livro de entrevistas de Bergman a um jornalista sueco no qual ele fala do verão. O verão é tudo para os nórdicos, condenados a viver seu frio, suas noites longas. Liv Ullman esteve no Brasil anos atrás e nos disse que não tínhamos ideia do que significava  viver uma noite infindável como são as de inverno em sua Noruega natal ou na Suécia. Aliás, o título original em sueco é O Verão de Monika.

Mas, continuava Bergman, depois do encanto inicial, dava-se o contrário e o verão lhe parecia uma prisão com seu sol inclemente, dominando quase a totalidade das 24h do dia. Pode-se igualmente estar preso na luz como na sombra.  

De qualquer forma, o verão metafórico de Harry e Monika é breve. Ela é apenas uma adolescente, intuitivamente libertária, sem ter lido qualquer livro feminista ou participado de qualquer manifestação. Ele, um rapaz meio bobo e apaixonado. Do bem.

Na mesma entrevista (não dou as referências completas porque o livro está em São Paulo e eu, em Santos), Bergman dizia jamais ter conhecido uma sueca sensual como Harriet Andersson daquela época. Tiveram um caso longo, parece que de três anos, e Harriet passou a ser habituée dos filmes de Bergman.

Ele conta outra história engraçada. Filmaram no arquipélago de Estocolmo e, terminado o trabalho, quando levaram os copiões para revelar, o laboratório disse que estava tudo estragado, inaproveitável. Dera tilt na câmera, por algum motivo, e o trabalho teria de ser refeito.

Bergman disse que “choraram lágrimas de crocodilo” porque teriam de voltar ao arquipélago e filmar tudo de novo.

Continuar aquele verão em particular era tudo que queriam – Bergman e Harriet, por certo, mas talvez também os outros.

Há sempre, em nossas vidas, um verão do qual não queremos sair. O de Bergman foi aquele.