O vento bravo
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O vento bravo

Luiz Zanin Oricchio

18 de junho de 2013 | 00h37

 

Alguns amigos e leitores me cobram algo sobre tudo isso que está acontecendo.

Ok. Mas não vou fingir que estou entendendo tudo. Acho que ninguém está. Assim como ninguém poderia prever que tudo tomaria a dimensão que afinal tomou. Da mesma forma, não sabemos aonde vai dar. Pode morrer num suspiro. Pode se ampliar e virar outra coisa. Só nos resta observar.

Os líderes do movimento Passe Livre tentam circunscrever a coisa ao aumento de tarifas, aos tais vinte centavos. São jovens, são articulados e, no fundo, sabem que a coisa tomou uma dimensão bem mais ampla. Certo, transporte é algo que afeta todo mundo, em especial numa cidade como São Paulo. E todas as grandes cidades brasileiras tendem a ser São Paulo, pela proliferação desatinada de carros, pela especulação imobiliária desenfreada, pelo crack, por tudo isso. É enlouquecedor. Mas a cada vez que os carros enchem o pátio das montadoras, baixa-se o imposto porque o capital precisa girar.

Os meninos se reivindicam de esquerda. Apartidários e não socialistas, mas de esquerda. Ou seja, se bem entendi, preferem achar que, conforme o jargão, outro mundo é possível. Mais solidário, menos injusto, etc. Tudo isso me soa bem.

O movimento está nas ruas. Os tais vinte centavos podem ter uma dimensão bem real (afastemos esse pensamento de classe média de que não fazem diferença no orçamento de ninguém, etc.). Mas, mais provavelmente, o aumento funcionou como catalisador de insatisfações variadas. É por isso que grupos de toda natureza vêm engrossando o caldo nas ruas – e nas redes sociais. Punks, simpatizantes de várias tendências de esquerda ou anarquistas, descontentes sem partidos ou ideologias, gente incomodada com a corrupção, ou com os estádios de futebol superfaturados e pagos pelo dinheiro público, etc. O movimento é uma nau generosa e que a todos abriga.

Até mesmo gente reconhecidamente de direita, que, de repente, vê com bons olhos essa galera jovem e rebelde. Logo eles, os da direita, que amam a ordem acima de todas as coisas! Ordem e livre comércio. Tradição, família e propriedade. Confesso que certas adesões de última hora me deixaram um tanto confuso, e com o pé atrás.

Mas, de qualquer forma, é tudo compreensível. Uma insurreição é uma força bruta, que escapa ao controle de quem a desencadeia. De modo que todos se sentem tentados a surfar essa onda, a aproveitar-se dessa energia um tanto sem direção, que se apresenta aí, à disposição do primeiro que conseguir interpretar-lhe o sentido. É quase uma pulsão cega, bela e cheia de frescor, que pede para ser canalizada para fins políticos. É por aí que a coisa vai andar, muito provavelmente. E é com isso que os meninos precisam tomar cuidado. Espertalhões vão tentar instrumentalizar essa força e aproveitar-se dela. Cautela.

Quem começou tudo isso? Se me permitem uma referência antiga, lembro de Trotski, acusado de insuflar a insurreição na Rússia e defendendo-se no tribunal com o argumento de que o que havia criado a insurreição era a injustiça social profunda; ele se limitava a liderá-la e controlá-la. É brilhante: o que cria um movimento de protesto, como este que vivemos, é a situação social insuportável. Uma sensação universal de, permitam-me, saco cheio, que, de repente, por razões insondáveis, cristaliza-se em torno de uma causa, por pequena que seja ou pareça, e cresce e explode e intimida os poderosos. Como está acontecendo precisamente agora.

Há algumas lições preciosas a serem tiradas disto tudo, mesmo que não saibamos no que vai dar. Primeiro, que a vida vai se tornando intolerável, cada vez mais, mesmo que as condições materiais aparentemente melhorem, pelo menos para boa parte da população. Viver neste mundo violento, atulhado de automóveis, ultra competitivo e individualista parece não fazer nenhum bem às pessoas. Este momento é como um despertar. Se depois regressaremos ao sono ou passaremos a abrir os olhos com mais frequência, o tempo dirá.

Outra coisa a ser constatada é a feliz imprevisibilidade do ser humano. Há quinze dias diríamos de todos, e da juventude em particular, que era passiva e inofensiva. Que só pensava em seus Iphones, namoricos e joguinhos eletrônicos. Pois bem, não é assim. Eles fizeram algo que não julgávamos fossem capazes. Voltaram às ruas. A rua foi redescoberta, depois de muito tempo ser apenas via de passagem de um lugar a outro, vias de trânsito caótico do nosso tédio infinito. É lugar de convivência. É lugar de luta e enfrentamento. É onde se joga a construção e também a destruição do social. Tudo depende do que fazemos dela. Rua é vida real, não virtual.

De qualquer forma, o vento virou. É o que toda pessoa de bom senso deve constatar, goste ou não. Para que lado vai soprar, ainda é coisa indefinida. Mas virou. Como vira no mar, trazendo tempestade. Ou bonança.

Vento Bravo é uma das mais belas canções de Edu Lobo, letra de Paulo César Pinheiro, se não me engano. Nela se lê e ouve: “Quando a palma verde se avermelhar/Surge o vento bravo/Como um sangue novo/Como um grito no ar/Correnteza de rio/Que não vai se acalmar”.

Não sei qual a cor desta palma nem a direção deste vento. Suspeito que seja forte e regenerador. Torço por isso.

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