O Velho Graça e o cinema
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O Velho Graça e o cinema

Luiz Zanin Oricchio

10 de julho de 2013 | 15h50

Outro dia, comentando as três obras de Graciliano Ramos adaptadas (Vidas Secas, Memórias do Cárcere e São Bernardo), disse algo sobre a relação do escritor com o cinema.

Na verdade, baseava-me na implicância do seu personagem Luis da Silva, em Angústia. Moralista, Luis comenta com seu vizinho, Ramalho, que o cinema é uma pouca vergonha. Que os casais saem de lá “esquentados” com o que veem na tela. Recomenda ainda a Ramalho que, podendo, ficasse longe das salas de projeção. Aquilo é o inferno, insiste.

Bom, mas essa é a opinião do personagem. E já estamos grandinhos para confundir opinião de personagem com a do autor, não? Na verdade, nunca tinha lido coisa alguma do próprio Graciliano falando em cinema.

Acontece que, motivado pela homenagem da Flip, comecei a ler, com imenso atraso, a biografia de Graciliano escrita pelo Dênis de Morais (O Velho Graça, José Olympio, 1992, 2ª edição). Soube que Dênis esteve em Paraty, falando de Graciliano, claro, mas não acompanhei todo o noticiário. É coisa demais, pois, para a imprensa brasileira a Flip é o terceiro maior evento em importância mundial, perdendo, talvez, para a Copa do Mundo e a Olimpíada. É que lemos muito aqui neste país, sabe?

Mas, enfim, lendo o Dênis, encontro a citação de uma crônica de 1915: “O cinema! Ah! O cinema é uma grande coisa! É quase como o amor – é decantado e posto em prática por toda a gente. (…)Aquilo é delicioso. Eu adoro o cinema. (….) Decididamente, eu sou doido pelo cinema. Todo mundo é assim, todo mundo gosta de cinema. E se alguém o censurar, o vilipendiar em vossa presença, podeis afirmar convictamente que esse alguém é um despeitado.”

Despeitado, talvez, como Luis da Silva, seu neurótico personagem. Quer dizer então que o Velho Graça era louco por cinema, como quase todo mundo. Pelo menos o seu amor foi correspondido, pois o cinema o tratou muito bem até agora. Vidas Secas e Memórias do Cárcere, de Nelson Pereira dos Santos, e São Bernardo, de Leon Hirszman, são três obras-primas.

 

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