O ursinho do Protógenes
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O ursinho do Protógenes

Luiz Zanin Oricchio

28 de setembro de 2012 | 00h10

 

Fui almoçar num shopping e, para fazer a digestão, resolvi ver um filme. Não era grande a oferta, como em geral acontece nos cinemas de shoppings. Mas um deles me chamou a atenção: Ted, aquele que o deputado Protógenes Queirós foi ver com o filho de 11 anos e ficou escandalizado. Bom, tudo o que pode escandalizar um deputado já é digno do meu interesse. Entrei.

Uma nota: não compartilho dessa bobageira atual de que “todos os políticos são corruptos, isso ou aquilo, etc”. Não posso aceitar esse tipo de preconceito porque, como em todas as categorias profissionais, há entre eles os bons, os maus e os medianos. Além disso, somos nós que os elegemos. Então, cada crítica que a eles fazemos se volta sobre nós, como por um efeito de espelho. Mas, afinal, tendo a achar que são pessoas experientes, com visão adulta do mundo, cidadãos de horizontes mais ou menos largos, até mesmo pela convivência com o poder, que impõe um pacto realista entre o sujeito e o mundo. Portanto, o que teria esse filme que provoca escândalo no deputado Protógenes?

Tem o seguinte: Ted é uma espécie de fábula politicamente incorreta sobre adultos que não conseguem crescer. Vemos o personagem de John, na infância, ganhando o tal ursinho de pelúcia e, num determinado momento, implorando para que ele ganhe vida e seja seu companheiro pela existência afora. De algum modo, o desejo é atendido e a fábula tem início. (A história é narrada por uma voz off, tão séria que se torna zombeteira. Parece narração de alguns filmes dos Coen ou de Von Trier).

Enfim, há um pulo no tempo, e então reencontramos os dois personagens, John, agora vivido por Mark Whalberg, e o urso, que adquiriu voz adulta. Ambos continuam amigos e, agora, companheiros de farra. Mulherengos, bebem e fumam maconha em tempo integral. Ted, o urso, é particularmente desbocado. Solta palavrões dos mais cabeludos. Bastam  rudimentos de inglês para perceber que as legendas brasileiras atenuam bastante as frases – talvez para relativo alívio do deputado Protógenes.

O filme, dirigido por Seth MacFarlene, alterna bons e maus momentos. Flerta com o lado anárquico, mas tem um fundo conservador, apesar das aparências. A amizade entre o homem e seu brinquedinho de estimação é perturbada pela entrada em cena da namorada de John, a fatal Mila Kunis. Ela quer casar. Mas não quer casar com um cara de 35 anos cujo melhor amigo é um ursinho safado.

Mas, em seu todo, Ted é uma boa comédia. As frases, algumas ao menos, são bem boladas e provocam riso. Um pouco porque, numa época repressiva como a nossa, transgressões provocam alegria e nos fazem sonhar com um mundo menos sisudo. Por outro, vindas da boca de um ursinho de pelúcia, tais barbaridades ficam ainda mais surpreendentes e, portanto, risíveis.

Parece que, num primeiro momento, o deputado Protógenes quis proibir o filme (como se tivesse poderes para tanto) e agora se contenta em alterar a classificação etária, aumentando-a de 16 para 18 anos. Há de ter seus motivos, inclusive porque levou seu filho de 11 anos para ver um filme recomendado a maiores de 16.

Convém lembrar: no Brasil, moças e rapazes de 16 anos podem votar. Não é obrigatório, mas, caso queiram, podem ir às urnas e eleger deputados como Protógenes. Mas são considerados, pelo deputado, mentalmente incapazes de rir de maneira sadia com o alegre besteirol do ursinho Ted.

Isto é Brasil ou não é?

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