As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O Último Minuto

Luiz Zanin Oricchio

26 de maio de 2013 | 00h35

Não são muitos os escritores que se arriscam a eleger o futebol como fonte de ficção. Entre as exceções contemporâneas, o grande Sérgio Sant’Anna e também agora Marcelo Backes. Tradutor de Kafka e Broch, o gaúcho Backe cria, em O Último Minuto, um personagem que filtra a sua experiência vital pela ótica do esporte mais popular do mundo.

Ele mesmo, o protagonista, João, o Vermelho, ou Iánic, filho de russo e alemã, gaúcho de cepa, é um técnico de futebol. Para não dizer que esta é a primeira vez que um “professor” (que é como os boleiros chamam o treinador) se apresenta na literatura brasileira, há o sempre pioneiro Sérgio Sant’Anna em seu conto Na Boca do Túnel com o técnico fracassado que mora com a mãe na sua triste maturidade.

João, no entanto, parece, parece um narrador de outra estirpe. É preciso dizer que o romance se desenvolve como um grande monólogo. Ou, para precisar, com a história do narrador, João, contada para um interlocutor, e num local determinado, a cela de uma prisão. João está preso em razão de um crime cuja natureza o leitor conhecerá apenas nas últimas páginas. Ele conta a sua história para essa testemunha especial, um seminarista, como se revela a determinada altura.

À maneira de um Riobaldo, o narrador de Grande Sertão: Veredas, João, ao contar a sua história a outro, tenta dar-lhe um sentido. Mesmo se, em meio à narração, desconfie frequentemente de que a trajetória de uma pessoa possa de fato possuir essa coisa pomposa que chamamos de significado. Ou que o fato de narrá-la para outrem, lhe empreste uma coerência qualquer. Há por um lado, o desejo de contar e, por outro, um desalento de base daquele que conta. Como se desconfiasse de si, ou de sua própria capacidade narrativa. Ou de sua sinceridade ou da memória ao relembrar fatos que vão da infância à maturidade, incluindo a viagem e estadia na Suíça, onde o acaso o leva a se transformar no técnico de futebol, carreira que adotará para o resto da vida. E que também estará na origem de sua fortuna e sua desgraça, conforme verá o leitor.

A nota mais marcante é a consciência de que seu métier pode ser esse ponto de observação privilegiado da ópera bufa da vida. Ele, Nelson Rodrigues e todos os que sabem que o futebol é muito mais que um esporte. Metáfora da vida, “O verdadeiro teatro da existência, o maior circo de todos os tempos, a última representação sacra da contemporaneidade. Um rito, no fundo, a religião popular dos que ainda não haviam se entregado toscamente ao neoevangelismo, e bebiam seu pão e seu vinho em doses fartas de cerveja e salgadinhos vendo a bola rolar”.

Eis aí o nosso “herói”. Um oficiante dessa seita laica, filósofo da bola e da vida, tentando encontrar no jogo inventado pelos ingleses (em sua modalidade moderna) as ferramentas intelectuais para decodificar as entranhas da existência, dar sentido ao que talvez não o tenha, arrancar da harmonia idealizada a desordem provocada pelo acaso e pelo caos. João é um fanático pela ordem e, nesse sentido, não poderia ter encontrado profissão mais adequada. Técnico, ele sabe que qualquer morrinho artilheiro pode derrubar a mais intrincada das estratégias, o mais minucioso dos planos táticos. E, no entanto, cabe ao técnico agir e trabalhar como um mouro, ou como Mourinho, como se o acaso não existisse. Esse acaso que se manifesta de forma insidiosa nos jogos como na vida das pessoas, levando-as à fortuna ou a ruína de maneira indiscriminada.

Cheio de volteios e negaças narrativas como os dribles de um jogador genial, complexo em sua estrutura como o afrontamento de duas filosofias de jogo opostas, o romance de Marcelo Backe, como as boas partidas, só se resolve mesmo no minuto final – exatamente como seu título afirma.

 

 

 

Tudo o que sabemos sobre:

Marcelo Backes

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.