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O Último Dançarino de Mao

Luiz Zanin Oricchio

11 de dezembro de 2011 | 19h33

O Último Dançarino de Mao é a versão para cinema da autobiografia de Li Cunxin, nascido num vilarejo chinês, e que se tornou uma referência na dança mundial, fazendo carreira nos Estados Unidos e na Austrália, onde hoje vive. O drama é dirigido por Bruce Beresford, cujo filme mais conhecido é Conduzindo Miss Daisy, vencedor de quatro Oscars em 1990, incluindo o de melhor filme.

Quem viu Conduzindo Miss Daisy sabe que a tendência do australiano Beresford o leva para as proximidades perigosas da pieguice, mas, sem, talvez, nela mergulhar de maneira acrítica. Há disso também nessa bela história de Li Cunxin, uma trajetória de realização pessoal, mas também de renúncias e conflitos, envolvendo algumas questões políticas próprias da Guerra Fria. Claro que este não é o foco principal do filme, mas ele atravessa essas circunstâncias históricas de maneira inevitável.

Por exemplo, quando vemos o pequeno Li Cunxin, com sua família pobre do interior da China, há uma situação política bem marcada – a da Revolução Cultural, comandada pela então esposa de Mao Tsé-tung, Chiang Ching. Ela, com seus característicos óculos redondos, vê um bailado local e logo questiona o líder da comunidade: “E onde está a revolução? Onde estão as armas?” Maneira de dizer que arte deveria ser politizada, deveria servir à educação do povo para os valores da revolução. Onde fica a estética nesse mundo em que a arte deve, de forma programática, ser colocada a serviço de uma causa, não importa seja ela boa ou má?

Há toques assim espalhados pelo filme. Talvez sejam transcrição exata da autobiografia do dançarino; talvez esses pontos tenham sido reforçados por Beresford segundo suas próprias convicções. No fundo, pouco importa, porque, ao vermos um filme, analisamos o resultado exposto na tela, e nada mais. O filme se diz a si próprio, independente do que dele diga o diretor.

De qualquer forma, acompanhamos a trajetória de Li Cunxin na meninice até sua transferência a Pequim, beneficiado por uma bolsa de estudos do governo. Anos depois, o grande passo, a viagem aos Estados Unidos num programa de intercâmbio. Li, já um rapaz, chega a Houston, no Texas, e talvez seu deslumbramento boquiaberto diante dos arranha-céus tenha chegado perto do caricatural. Entendemos que um jovem saído do interior chinês fique surpreso com a opulência arquitetônica dos Estados Unidos mas, mesmo assim, a reação parece um tanto exagerada, feita para assinalar a diferença de estágios entre as duas civilizações. E, claro, não está no filme à toa, mas para marcar determinada posição do diretor.

Isso não tira o encanto da história de Li Cunxin, com seus elementos de superação pessoal, tão a gosto do Ocidente cinematográfico. Ou, pelo menos, do mainstream, a corrente dominante desse cinema, da qual Beresford faz parte. Boa parte dessa força vem de Chi Cao, que interpreta Cunxin quando adulto. Sóbrio, vencendo aos poucos a timidez, apaixonado e determinado, ele dá ao filme uma pulsão que de outra forma não teria. Compreende-se. Os pais de Cao foram antigos professores de Cunxin na Academia de Dança de Pequim. O próprio Cunxin escolheu Cao para interpretá-lo no cinema. Essa familiaridade contribui muito para a autenticidade do filme, em que pesem seus momentos menos felizes porque cortejam a emoção fácil e mais caricaturais porque flertam com a ideologia.

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