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O Último Bandoneón

Luiz Zanin Oricchio

10 de maio de 2008 | 11h11

O Último Bandoneón, de Alejandro Saderman, não é um documentário convencional apenas porque seus personagens são verdadeiros mas, de tempos em tempos, interpretam a si mesmos. Não existe uma ‘história’ a contar, a não ser que se considere assim a de Marina Gayotto, que toca esse instrumento intimamente associado ao tango e procura ter aulas com um mestre renomado como Rodolfo Mederos, craque do tango, que tocou com Piazzolla e dele herdou a arte e seu próprio instrumento.

Enfim, Marina já seria essa avis rara no meio dos músicos de tango, no qual predomina amplamente o gênero masculino. Ou devemos dizer que ‘predominava’? Sim, porque o filme que, por um lado, mostra o mundo antigo do tango, revela também o seu presente — é apreciado pela juventude, eventualmente mixado a ritmos modernos e há muitas mulheres que tocam seu instrumento principal, o bandoneón. E é atrás de um bandoneón novo que Marina está, pois o seu é um objeto meio imprestável e sem conserto. Um velho dinossauro, com foles entupidos e teclas duras. A certa altura, seu mestre diz para o auxiliar que a moça tem talento mas está arrastando ‘um elefante morto’ – referência ao instrumento decadente.

Marina sobrevive em Buenos Aires arrastando o elefante morto por onde anda. Inclusive dentro dos ônibus nos quais fatura alguns trocados tocando para os passageiros. Tenta um lugar ao sol na escola de Mederos e anda atrás de outro instrumento, mas tem de ser um Doble A, que já não é fabricado. Portanto, ela se vê obrigada a garimpar em velhas oficinas, conversar com luthiers, convencer senhoras que se tornaram revendedoras dessa raridade, e finalmente ir a leilão. Ficamos sabendo que muitos desses instrumentos são comprados por japoneses e saem da Argentina. Também conhecemos um desses personagens raros, um japonês que veio para Buenos Aires atraído pela música e por lá ficou, considerando-se hoje ‘mais argentino que japonês’.

Essa pequena trajetória pessoal de Marina é o pretexto de Saderman para redescobrir uma Argentina tradicional, a dos ‘barrios’, do culto a Gardel, dos dançarinos e dançarinas, dos cafés de Buenos Aires. Escutar e ver esses artistas é uma delícia. As veteranas dizem que o verdadeiro tango se dança na pista e não nos palcos para turistas. Vê-las dançar é um prazer. E escutá-las também. Há uma velha filosofia de vida que passa por essas pessoas e é mostrada no filme, sem maiores comentários. Evocam uma maneira, digamos, mais artesanal de relacionamento com a vida. O tango não é, para eles, um caminho para se tornar famoso ou ganhar dinheiro. Nada disso. O tango é mais do que um meio de sobrevivência – é um sentido de vida. E este vai sendo passado de geração em geração.

É preciso também que o espectador entenda a proposta de Saderman. De um lado, é claro que ele pretende fazer uma homenagem ao tango, na figura daqueles que o praticam de maneira mais autêntica, menos turística ou for export. De outro, parece que vai atrás de certa ‘pureza’, de algo original, de um centro possível para um país que, como todos os outros, parece meio inseguro de sua própria identidade nessa época de bombardeio global de informações. O tango seria essa linha autêntica a buscar, o centro duro de uma certa ‘argentinidade’ que subsistiria intacta, depois de raspado o fast food cultural contemporâneo.

Claro que isso pode ser ilusório e, como sabemos, a questão da identidade não se define por uma essência, um conjunto de qualidades; é mais algo dinâmico, buscado a cada momento, do que uma entidade que resiste em estado puro em algum canto. No entanto, como fazemos por aqui, também lá existe essa busca da essência nacional. E, na Argentina, ela passa pelo tango. Não por acaso, a certa altura, Rodolfo Mederos cita o escritor Macedônio Fernandez, para quem o tango seria o protótipo mesmo da cultura argentina, a única das manifestações do país que ‘não teria contas a prestar à Europa’.

Mesmo assim, o clima que somos convidados a experimentar em O Último Bandoneón lembra, em muitos aspectos, a origem bastante européia da nação argentina, muito mais presente do que a nossa. Seus bairros afastados, onde moram alguns dos velhos bandoneonistas, lembram certas ruas de Madri, ou de alguma cidade italiana. São imóveis amplos, um tanto desgastados pelo tempo, como seus donos. É um mundo de pouco dinheiro e muito sedimento cultural. As paredes estão precisando de uma mão de tinta, mas os homens que moram entre elas sabem muito bem o que desejam da vida. Há alguma coisa da cultura antiga entre eles, um sentido de continuidade. E de dignidade. De certa forma, O Último Bandoneón não é apenas um filme sobre uma tradição musical, mas sobre um país em busca do seu eixo. Visto assim, torna-se ainda mais comovente.

(Caderno 2, 9/5/08)

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