O tempo em Boyhood
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O tempo em Boyhood

Luiz Zanin Oricchio

02 de novembro de 2014 | 14h57

 

Há em Boyhood – da Infância à Juventude algumas ambições raras no cinema atual. A primeira é abarcar o fluxo do tempo. A segunda, talvez ainda mais alta, é fazer o cinema quase uma representação total da vida. Como se o cinema fosse capaz não mais de apenas registrar pedacinho da vida, ou um ponto de vista do autor, mas pudesse dar conta dessa totalidade inapreensível que é a existência de cada um de nós.

É claro que são dois projetos utópicos, porque irrealizáveis. No entanto, a tentativa de Richard Linklater é brilhante.

Em especial porque ele nos carrega através dessas trajetórias de vida tão despidas de fatos extraordinários como se seguíssemos os passos de uma grande aventura.

Vemos a mãe, Olivia (Patricia Arquette), brigar com o primeiro marido e pai das crianças, Mason (Ethan Hawke) e separar-se. Vamos vê-la, em seguida, lutando por uma posição melhor, estudando, tornando-se professora. Vamos, ao mesmo tempo, seguindo as crianças, que se tornam pré-adolescentes, adolescentes e jovens, por fim. Acompanhamos a transformação da família, sua reordenação tortuosa através de dois casamentos mal sucedidos da mãe. E temos o pai, que à distância, e às vezes por perto, segue o crescimento dos filhos.

A narrativa é fascinante. Mesmo que nela nada aconteça que a distinga de outras vidas normais. Como as nossas próprias, por exemplo. Há duas maneiras de olhar para a “normalidade” da vida. Ou considerá-la medíocre, algo que só interessa às próprias pessoas que a vivem. Ou, pelo contrário, considerar que não existem vidas banais. Todas, mesmo as em aparência menos emocionantes, são cheias de encanto, de altos e baixos, de dúvidas, de vitórias e derrotas, de esperanças frustradas, de pequenos sucessos. Ou seja, não existem vidas pequenas. Existem vidas mal contadas.

Essa é a visão dos artistas que cultuam as vidas comuns. O que há de tão banal como o cotidiano (na verdade um único dia) de um vendedor de anúncios, enganado pela mulher? No entanto, se esse cidadão se chamar Leopold Bloom, morar em Dublin, estiver vivendo o dia 16 de junho de 1904 e encontrar um narrador como James Joyce, teremos uma obra-prima como Ulisses. Então, depende de como se conta e menos daquilo que se conta.

Por isso, o estilo é o fundamental no projeto de Linklater. É claro que o projeto, uma vez imaginado, o forçava a uma filmagem em sequência na linha do tempo, mas os recortes temporais parecem tão nítidos e tão naturais que dão a impressão de uma continuidade que de fato não existe. Ou que passa a existir na sensação psicológica daquele que se entrega às 2h45 de duração do longa.

Por outro lado, Linklater não se entrega a um processo de reflexão sobre esse fluxo, mas apenas o registra, como de um ponto de vista objetivo. É algo bastante diferente, por exemplo, de uma atitude mais, digamos assim, filosófica, como o Proust de Em Busca do Tempo Perdido, ou seus derivados cinematográficos como o notável O Tempo Redescoberto, de Raul Ruíz. Em Boyhood temos algo de natureza diferente, e ao mesmo tempo, encantador – o registro da duração e a entrega a ela. Ao tempo que traz o novo e que tudo leva, afinal.

 

 

 

 

 

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