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O Tempo e o Lugar

Luiz Zanin Oricchio

16 de maio de 2008 | 19h18

O Tempo e o Lugar, de Eduardo Escorel, sob o pretexto de retratar a trajetória de um pequeno agricultor alagoano, serve de estímulo a comentários políticos dos mais variados. Isso se deve à natureza da história de vida do retratado, Genivaldo Vieira da Silva, um ex-líder do Movimento dos Sem-Terra, agora transformado em proprietário de dois sítios e candidato (derrotado) à prefeitura de Inhapi, no interior de Alagoas.

O tipo é sedutor. Fala bem, expressa-se com simpatia e entrega-se com evidente prazer à releitura da própria vida. Vê jornais antigos, em que aparece preso como agitador. Exclama ‘que tempo!’, como se sentisse saudade ou orgulho do passado. Mas quem agora presta depoimento à câmera é o pequeno proprietário que fala do MST como de uma seita de fanáticos, que recebe treinamento do grupo guerrilheiro peruano Sendero Luminoso. É suficientemente ambíguo para admitir que ’95 % do que sei aprendi com eles’.

As contradições de Genivaldo expressam-se em sua própria família. A mulher criou os filhos sozinha, porque o marido estava sempre na luta. Um dos filhos é militante do PT e intransigente na oposição ao pai. Um segundo filho está em posição contrária. E outros dois trabalham como seguranças em Maceió. Uma das filhas desfez o casamento porque o noivo queria uma mulher à antiga, que não estuda e muito menos trabalha. O pai apóia a filha. Mas, em outros aspectos, se mostra de um tradicionalismo a toda prova. A câmera do documentarista, próxima dessa família, revela as linhas de força, não raro opostas, de um Brasil que deseja se renovar e ao mesmo tempo também ser conservador.

Lança também seu olhar sobre a política dos pequenos municipíos, com suas necessidades prementes e o tipo de alianças que aí se fazem – uma realidade da qual os grandes centros e a imprensa parecem não cuidar e que, no entanto, é a política que age por capilaridade no interior e dela o ‘Brasil profundo’ tira a sua força e sua inércia. Nesse sentido, a trajetória de Genivaldo é mais do que reveladora, em seu deslizar da posição revolucionária à reformista, terminando pela preocupação particular com a família e consigo mesmo. Hoje, Genivaldo fala de uma pequena gleba que prepara na Bahia como um ‘paraíso particular’. O ex-incendiário suspira por seu Éden privado.

Escorel tem dito que não gostaria que o filme fosse visto como estudo geral sobre o MST ou sobre o governo Lula (Genivaldo diz que se desiludiu com o PT em 2005). Mas talvez seja inevitável que isso aconteça, dado o momento excessivamente ideologizado por que passa a sociedade brasileira. Nesses períodos costuma-se haver pouca serenidade para refletir sobre algumas questões que esse filme propõe. Por exemplo, o das diferenças culturais entre regiões, que pode intrometer-se mesmo em uma luta política, a força da religião e o apego à propriedade.

Escorel surprende-se com o mal-estar que o filme tem causado no público simpático ao MST e ao PT. Não deveria. Um filme (de ficção ou documental) nunca é neutro e nem neutro é o público que o assiste e debate. O cineasta escolhe as imagens para captar. Depois, opta por uma montagem dessas imagens, entre tantas possíveis. Tudo é escolha e o público que o assiste também tem suas idéias e faz suas opções. Esse filme esclarecedor provavelmente chega em época errada. A maneira como será interpretado dirá talvez muito mais sobre os intérpretes do que sobre o filme em si.

(Caderno 2, 16/5/08)

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