O som e a bola
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O som e a bola

Luiz Zanin Oricchio

22 de março de 2010 | 16h06

1977 - Pelé no Cosmos de Nova2 York - o mundo é uma bolaSom e bola – essa dupla de classe tinha tudo para dar certo no Brasil. E deu. A tabelinha está registrada em “Futebol no País da Música” (Panda Books) do jornalista Beto Xavier. Ao longo de 276 páginas, Beto, que cobriu como profissional inúmeros festivais da canção e é torcedor do Grêmio de Porto Alegre, refaz essa história feliz da música que comenta o esporte favorito dos brasileiros.

Uma relação que começou lá atrás, como ele registra em pesquisa que lhe custou 15 anos de trabalho, e aponta o choro “1 a 0”, de Pixinguinha, como uma espécie de marco inicial, não apenas pela importância da música em si, mas pelo fato de comemorar a primeira grande conquista internacional do Brasil. Com esse placar miúdo sobre o Uruguai, gol do mitológico Arthur Friedenreich, a seleção ganhou o Campeonato Sul-americano de 1919, em partida dramática no Estádio das Laranjeiras, que levou o País ao delírio. Comovido, Pixinguinha compôs a música em homenagem ao escrete e deu-lhe o apertado placar como título.

“1 a 0” pode ser a pedra fundamental desse relação. Mas há quem diga que ela começou antes. “Há uma música chamada Amadores da Pelota, de 1912, cuja gravação se perdeu”, conta Beto em conversa com o Estado, “e não há certeza de que se referia mesmo ao futebol, pelo que pesquisei em arquivos.” Assim, pouco se conhece dessa pré-história da relação entre música e futebol no Brasil.

Em todo caso, a história, propriamente dita, é riquíssima, quase inesgotável, como testemunhou o pesquisador em seus vários anos de trabalho. “O livro cita mais de mil músicas relacionadas ao futebol, e isso porque nem prestei tanta atenção assim aos hinos dos times, porque senão o trabalho seria inesgotável”, diz. Isso porque o mais pobre dos times de esquina pode nem ter um jogo de camisas decente, mas tem seu hino. Como são milhares espalhados pelo País, seria inviável conhecê-los e listá-los. Mesmo alguns grande clubes têm mais de um hino, como é o caso do Santos, cuja música mais cantada pela torcida, Leão do Mar, sequer é o oficial do clube.

No capítulo hinos, claro, o destaque do livro vai para Lamartine Babo, que compôs a música-tema para cada um dos clubes do Rio de Janeiro, produzindo obras-primas em série. Lalá reservou o melhor de todos ao seu clube do coração, o América Futebol Clube. É um plágio, dizem.

A música dita erudita também não ficaria de fora do mundo da bola. Mesmo porque existe um vínculo de origem interessante entre os dois universos, com o casamento de Charles Miller, pioneiro do futebol no Brasil, e a pianista clássica Antonieta Rudge. Antonieta foi professora do compositor Gilberto Mendes (colunista do Estado), que criou uma magnífica peça de música contemporânea em honra ao seu time, chamada Santos Football Music.

Sim, há os hinos, marchinhas, frevos e peças eruditas que falam de futebol. Mas a pátria musical da bola seria mesmo o samba. “Não por acaso, essa relação se solidifica entre os anos 20 e 30, quando o futebol caminha para o profissionalismo, o samba vive sua época de ouro e a Rádio Nacional difunde ambos para todo o País”, explica Beto a respeito desse círculo virtuoso.

Como o samba e o futebol passam a ser as paixões nacionais, parece natural que conversem entre si. Mesmo o reticente Noel Rosa faz alusões – em Conversa de Botequim, quer saber do garçom “qual foi o resultado do futebol”. Noel não entregava seu time. Mas dizia torcer para o clube em que jogava Fausto, a Maravilha Negra. Ou seja, o Vasco. E assim todos os clubes ganharam músicas em homenagem. Mas, compreensivelmente, nenhum deles como o Flamengo no Rio, e o Corinthians em São Paulo.

Jogadores também foram lembrados, como Sócrates, Pelé, Garrincha, Júnior, Zico, Fio Maravilha. Muitos deles retribuíram a cortesia e tornaram-se cantores. Se não exibiam no gogó a mesma competência mostrada em campo, pelo menos deixaram seus registros vocais. O rei Pelé chegou a gravar com Elis Regina, rainha da MPB em sua época. Como Charles Miller e Antonieta Rudge na época clássica do futebol, Garrincha e a sambista Elza Soares sacramentaram em casamento a união simbólica entre música e futebol na era moderna.

Nem toda relação entre música e futebol teve final feliz. Em 1967, Sérgio Ricardo resolveu investir seu talento nessa área. Mas a indócil plateia do Festival da Record não tolerou seu Beto Bom de Bola e, com uma tempestade de vaias, o impediu de cantar. Revoltado, Sérgio quebrou o violão e o atirou à plateia. O ato entrou para a história dos festivais. E da música. Bola dividida também faz parte do jogo.

(Caderno 2, 22/3/2010)

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