O som aponta o caminho
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O som aponta o caminho

Luiz Zanin Oricchio

03 Fevereiro 2013 | 21h58

 

Jorge Mautner – O Filho do Holocausto chegou aos cinemas na sexta-feira. E, nesta semana, entra em cartaz A Luz do Tom, segunda parte do díptico de Nelson Pereira dos Santos consagrado à arte e à figura de Antonio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim, o maestro soberano. Mais musicais vêm por aí, resgatando figuras como Pixinguinha, por Denise Saraceni, e Chico Buarque, por Miguel Faria Jr.

A “fórmula” (se fórmula é…) tem se revelado ganhadora, tanto no sucesso de público como no da realização artística. Falamos na segunda parte do díptico de Nelson Pereira sem mencionar que a primeira, A Música Segundo Tom Jobim, alcançou a cifra expressiva para um documentário de 75 mil pagantes na bilheteria, além de ter sido, o que é fundamental, um dos melhores filmes brasileiros de 2012.

Em parceria com a neta do maestro, Dora Jobim, Nelson garimpou imagens e sons das composições de Tom, tocadas e cantadas em todos os idiomas e continentes. Sem diálogos, narrativa em off, depoimentos de especialistas, o filme faz da própria música a evidência absoluta da grandeza do nosso maior compositor popular, e de sua repercussão no exterior. Garota de Ipanema é, até hoje, uma das músicas mais executadas no mundo inteiro.

Por falar nisso, não é coincidência que o parceiro de Tom em Garota de Ipanema e em tantas outras canções que viraram standards da nossa música, o poeta e diplomata Vinicius de Moraes (que se definia como o branco mais preto do Brasil), seja personagem do até agora mais bem-sucedido documentário musical recente. Vinicius fez 271 mil espectadores, proeza num país em que filmes de arte & ensaio patinam muito abaixo desse patamar. Para se ter ideia, Febre do Rato, de Claudio Assis, que tem encabeçado as listas de melhor do ano nas votações dos críticos (ganhou na APCA e na Abraccine, a Associação Nacional de Críticos de Cinema), fechou 2012 com 26 mil espectadores.

Aura. Vinicius bateu até documentários de futebol de sucesso, como Pelé Eterno (258 mil) e Todos os Corações do Mundo (265 mil), sobre a Copa dos Estados Unidos, vencida pelo Brasil em 1994. É um feito e tanto, que se deve ao diretor Miguel Faria Jr. e também ao personagem, que, morto em 1980, pelo jeito permanece vivíssimo na memória do País. Faria Jr., que agora vai retratar a vida de outro ícone, Chico Buarque, deu tratamento cinematográfico simples a uma vida complexa. Os versos de Vinicius, as parcerias com os grandes nomes da música do seu tempo, Tom, Baden Powell, Francis Hime, Edu Lobo, etc, os oito casamentos, o jeito amorável de brasileiro boêmio como não mais existe – tudo isso criou uma aura mágica em torno da persona de Vinicius.

Quando morreu, o grande Carlos Drummond de Andrade disse dele: “Nós escrevemos poesia; o Vinicius viveu poeticamente”. Bingo. Em sua simplicidade, o filme mostra esse viver poético impossível para a maioria de nós, mortais, atrapalhados com nossas contas e obrigações, e abre para nós uma janela sobre essa outra vida, um tanto utópica, tão invejável quanto distante.

Além de lembrar personagens, a música também evoca e pode resumir todo um período histórico. Foi o caso feliz de Uma Noite em 67, que atraiu 80 mil espectadores aos cinemas. O título se refere ao festival da canção da TV Record, que opunha duas vertentes da época. A mais “tradicional”, com Edu Lobo (Ponteio) e Chico Buarque (Roda Viva) e a inovação dos tropicalistas Caetano Veloso (Alegria, Alegria) e Gilberto Gil (Domingo no Parque). Restringindo-se àquela disputa e valendo-se de entrevistas atuais com os participantes de então, Ricardo Calil e Renato Terra conseguiram trazer de volta aquele momento tenso e criativo que era o do Brasil às vésperas do AI-5. As sessões do filme tornaram-se ritos emocionantes, com pessoas que viveram a época saindo comovidas e as que não viveram, com saudades de algo que não haviam presenciado. Um filme também se mede por esse tipo de repercussão e não apenas pelos números.

O doc musical tem servido também à experimentação, ao emprego de uma linguagem cinematográfica mais ousada em sua confecção. Vai desde o estruturalismo do curta-metragem que o diretor Carlos Adriano fez sobre o cantor paulistano Vassourinha (1923-1942), do qual sobraram poucos registros, em A Voz e o Vazio: A Vez de Vassourinha, até os documentários que Lírio Ferreira (diretor pernambucano de Baile Perfumado) dedicou a Cartola e a Humberto Teixeira, parceiro de Luiz Gonzaga em clássicos como Asa Branca e No Meu Pé de Serra. Cartola fez 64 mil espectadores e o filme sobre Teixeira, chamado O Homem Que Engarrafava Nuvens, mal passou dos 19 mil, ficando muito aquém das suas possibilidades. Mas pode-se dizer que é um dos melhores docs do gênero.

Raul. Acontece isso. Os filmes musicais são um bom veio mas não a panaceia para o cinema brasileiro em seu acesso ao mercado. Dependem de muitos fatores para falar (e cantar) ao público. Embora subjetiva, a qualidade é um deles, e a maneira como é lançado, outro. Raul Seixas foi muito bem – fez 167 mil espectadores, prova de que o culto ao roqueiro baiano continua bem vivo no Brasil. Já o ótimo Lóki, sobre o ex-Mutante Arnaldo Batista, mal chegou a 16 mil espectadores. Homem de Moral, que tem como personagem o sambista e biólogo Paulo Vanzolini atraiu apenas 7 mil pessoas aos cinemas e o sensível Waldick, em que Patricia Pillar perfila com sensibilidade o cantor romântico Waldick Soriano, estacionou nos 3 mil. Elza, sobre a cantora Elza Soares foi ainda pior: 2 mil espectadores.

Se nem tudo são flores, os ganhos da parceria música/cinema parecem dar mais frutos que espinhos. Uma tacada de mestre, que tem acertado a caçapa com frequência, é a dos docudramas – recriações ficcionais de ídolos da música. Ano passado tivemos Gonzaga – De Pai pra Filho, sobre o relacionamento entre Luiz Gonzaga e seu filho, Gonzaguinha, que atingiu 1,5 milhão de espectadores e continua em cartaz. Muita gente esperava mais. Em especial porque o diretor é Breno Silveira, responsável pela mais bem-sucedida empreitada do gênero, 2 Filhos de Francisco, sobre a infância, juventude e o êxito da dupla Zezé Di Camargo e Luciano, que chegou a 5,3 milhões de espectadores.

Walter Carvalho, que fez os bons 167 mil espectadores com Raul, em parceria com Sandra Werneck chegara ao paraíso dos 3 milhões e tantos com o docudrama Cazuza – O Tempo Não Para, com o roqueiro interpretado por Daniel de Oliveira.

Esses filmes escolhem o melhor dos mundos. Situam-se no gênero da ficção, o preferido do público e, ao mesmo tempo, falam de pessoas reais, muito conhecidas e queridas por suas trajetórias pessoais e obras. Talvez a conciliação entre realidade e ficção, essa mescla de gêneros, tenha indicado o caminho para Denise Saraceni recriar desse modo a vida de Pixinguinha, um dos maiores compositores de toda a história da música popular brasileira. Lázaro Ramos está cotado para viver na tela a genialidade de Alfredo da Rocha Viana, apelidado pela avó de Pizindim, o menino bom. O filme deve se chamar Pixinguinha – Um Homem Carinhoso, alusão tanto ao seu temperamento amável como ao seu maior sucesso e uma das músicas mais queridas do repertório. Roda de choro que não termina com Carinhoso corre o risco de ser vaiada.

2012 foi pródigo na exploração desse veio. Gonzaga de Pai Pra Filho, Raul Seixas, A Música Segundo Tom Jobim, Tropicália e Tropicalismo Now: Futuro do Pretérito, Vou Rifar Meu Coração, Marcelo Yuka, Clementina, e Coração do Samba foram títulos lançados no mercado que rimaram e versaram sobre a nossa música popular em toda a sua diversidade. Do samba ao baião, passando pela bossa nova, o rock nacional e por um movimento que foi tanto música como revolução no comportamento, como é o caso do tropicalismo.

Transfusão. E esse é um movimento que deve continuar, para além dos títulos já anunciados. Natural que seja assim. A música é o ponto forte da cultura nacional. Quando todas as outras formas de manifestação artística, inclusive o cinema, patinam no caminho do reconhecimento do público, a música segue em alta, sem necessidade de leis de incentivo ou cotas de audição. Já conheceu tempos melhores, é verdade, mas ainda segue forte e querida. Nada mais natural que o cinema tente beber algo dessa força, numa espécie de transfusão de popularidade. Foi o que fez, por exemplo, Cacá Diegues em Veja Esta Canção, produção da TV Cultura, no início dos anos 1990, época em que o cinema brasileiro vivia em penúria. Agora o momento é outro, mas a música ainda vibra sua antiga energia.