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O Silêncio de Lorna

Luiz Zanin Oricchio

06 de novembro de 2008 | 10h16

O que mais nos choca em O Silêncio de Lorna é a crueldade do mecanismo de sobrevivência social que é posto à mostra. O que nos redime é a consciência de que esse mecanismo impiedoso não é inevitável. Pelo contrário. Racional em seu DNA pragmático, essa estratégia competitiva da personagem falha pela interferência de algo tão abstrato quanto palpável – o imprevisível fator humano. No caso, o sentimento, o movimento de simpatia, ou de desejo, que atrai duas pessoas, contrariando as expectativas da razão.

Lorna (Arta Dobroshi, magnífica) é a emigrante albanesa, pivô de um golpe diabólico. Ela precisa de grana para abrir uma lanchonete com o namorado. Precisa também de uma carta de nacionalidade belga, um passaporte de Primeiro Mundo. O que fazer? Talvez um casamento arranjado com um belga, Claudy (Jérémie Renier). Acontece que depois o casamento terá de se desfazer, pois Lorna precisará “vender” a nacionalidade recém-adquirida, casando-se por sua vez com um russo disposto a pagar muito dinheiro para obter o passaporte belga. Quem é escolhido para dançar, no meio de tudo isso, é o outsider Claudy. E, afinal, quem vai ligar para esse pobre-diabo, drogado terminal? O negócio é usá-lo e depois livrar-se dele, como de um trapo velho. Até que entra em campo o imponderável.

Essa é a maneira de os Dardennes trabalharem a relação entre o campo social e o indivíduo. Em Rosetta, até agora o filme mais famoso da dupla (vencedor da Palma de Ouro em Cannes), a questão se dava entre a protagonista e a impossibilidade de encontrar um emprego. A falta de localização social propiciada pelo trabalho afeta até a medula da subjetividade humana, nos diz o filme. Em O Filho, a questão era entre um rapaz e o pai distante. E, em A Criança, os sentimentos atravessados entre um casal jovem, disfuncional para padrões de normalidade, e um bebê.

Em todos, há esse desencontro entre uma sociedade regida por uma racionalidade de relações e o caráter errático, anárquico mesmo dos sentimentos humanos, do desejo, do afeto. São filmes de fricção, de descompasso. Não é racional agredir loucamente uma sociedade porque não se consegue um emprego. Não é racional odiar (e talvez ao mesmo tempo amar) um pai que se conhece há pouco tempo. Não é racional ter um filho quando não se dispõe de qualquer estabilidade. Mas, apesar disso…

A questão, para Lorna, é que ela não se mostra capaz de domar seus sentimentos. No interior de um plano bem urdido, arrisca-se a colocar tudo a perder quando se expõe a emoções. Primeiro cede à compaixão, depois ao desejo. Por fim, cede a algo indefinível como o “instinto materno”, seja o filho imaginado ou real. Pouco importa. É essa possibilidade que a torna humana. Que a expõe em sua fragilidade, que derruba por terra a sua onipotência e que, por isso mesmo, pode ser a sua salvação.

Essa fissura entre a vontade e o desejo coloca-se para valer no momento em que o silêncio e a solidão de Lorna são quebrados por uma música, as notas do primeiro movimento da Sonata op. 111 de Beethoven. É um momento de epifania, de graça.

Serviço

O Silêncio de Lorna (Bél-R.Unido-Fr-It-Ale/2008, 96 min.) – Drama. Dir. Jean-Pierre e Luc Dardenne. 16 anos. Cotação: Ótimo

(Caderno 2, 6/11/08)

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