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O Signo da Cidade

Luiz Zanin Oricchio

25 Janeiro 2008 | 17h29

Há uma cena que diz muito sobre O Signo da Cidade. Um velho mulherengo (Juca de Oliveira) agoniza em um hospital. Tudo o que ele deseja, antes de morrer, é ver, pela última vez, um corpo de mulher. E nenhuma das enfermeiras bonitas, daquelas que são alvos da fantasia masculina, se dispõe a esse papel. Até que uma delas aceita despir-se para o velhote sem-vergonha. E ela não é, exatamente, uma deusa de beleza. No entanto, a visão do seu corpo, cheio de imperfeições e marcas do tempo, é aceita com prazer pelo agonizante. É um ato de doação, celebrado com alegria e generosidade mútuas.

Essa pequena seqüência, marcante, resume um pouco o clima desse projeto do casal Carlos Alberto Riccelli e Bruna Lombardi. Ele na direção, ela no papel principal, parecem ver com ternura essa cidade que não é exatamente uma festa para os olhos, que muitas vezes é áspera e cruel, que não tem sido bem tratada nem por administradores nem por quem nela mora, e, mesmo assim, ocupa um lugar de afeto no coração de todos nós. Temos com ela uma relação de ambigüidade e dificilmente nos dispomos a abandoná-la para valer, como prometemos a nós mesmos a quase cada dia. Resmungamos e vamos ficando.


Por isso não é preciso cair na banalidade e dizer que, por ser lançado num dia 25 de janeiro, O Signo da Cidade é um presente para São Paulo. É, sim, um desses filmes que têm a cidade como personagem mais do que mera ambientação, e que vêm se tornando freqüentes nos últimos tempos. Basta lembrar, por exemplo, de Não por Acaso, de Philippe Barcinski, e Via-Láctea, de Lina Chamie, para ficar nos mais recentes. No caso do projeto de Riccelli, a opção foi concentrar-se na diversidade de tipos encontráveis numa metrópole caótica como São Paulo. Há aqui espécimes de todos os gêneros, como se sabe, e entre eles não fazem falta os especialmente problemáticos, com tendência ao suicídio, os espertalhões de vários matizes, os que se drogam e bebem, os que não esperam nada da vida.

No centro desse vendaval, e tentando domar seus efeitos, está a personagem de Bruna, Teca, astróloga que mantém um programa de televisão e atende os espectadores ao vivo. O mal de Teca é querer resolver os problemas de todos, sem enxergar que está afundando em suas próprias dificuldades. É uma madre Tereza de Calcutá dos astros e devidamente midiatizada pela TV. Em torno dela se desenrolam os dramas das pessoas, e o dela próprio.

A estrutura do filme é parcialmente coral. Quer dizer, temos uma protagonista, a própria Bruna, com sua personagem que serve de ‘âncora’ para todos os demais, que circulam à sua volta. Personagens múltiplos que, com suas histórias paralelas, vão ajudando a compor esse painel fragmentado da metrópole sonhado no início do projeto. Ver a cidade, tomar seu pulso através dos seus habitantes e, dentre eles, aqueles psicologicamente carentes – esse parece ser o projeto de O Signo da Cidade.

Fazer esses seres diferentes orbitar em torno de Teca é a estratégia para construir um todo a partir de fragmentos. Linhas de vida cruzadas, uma estratégia que está longe de ser rara no cinema, bastando lembrar o mestre na matéria, Robert Altman, com seus canônicos Nashville e Short Cuts, mas também o ganhador do Oscar, Crash – No Limite, de Paul Haggis, e o mais recente Bobby, de Emilio Estevez, que reconstrói um trágico episódio histórico a partir de pequenas histórias passadas num hotel.

Esse tipo de filme costuma ser muito simpático pois contempla uma multiplicidade de personagens e dá a devida importância ao ser humano comum. Não aquele super-herói que sai voando pela janela ou enfrenta seus adversários na base da pancada, mas apenas pessoas como qualquer um de nós, que lutam para viver, realizar seus sonhos, resolver seus problemas e tendem a ver o mundo a partir dos respectivos umbigos. Gente como a gente, digamos. E que pode ser boa, egoísta ou simplesmente má, dependendo da circunstância.

Mas esse gênero de projeto engloba também um risco – é que existem histórias melhores do que as outras, ou que nos parecem mais críveis ou nos tocam mais por um motivo ou por outro. Assim, fica na memória o personagem de Juca de Oliveira, preso ao leito, à morte, e ainda assim cheio de libido, quer dizer, de vida. Difícil esquecer o travesti (Sidney Santiago) massacrado por uma gangue ou o marceneiro (Malvino Salvador), que sofre com a dependência de drogas da mulher (Denise Fraga).

Teca é como uma testemunha desses dramas, dessa divina comédia paulistana. Coloca-se na posição da franca ingenuidade e não é espectadora isenta, pois se envolve e sofre, por sua vez. Nessa visão terna e humanista não cabia uma linguagem cinematográfica mais ousada, talvez mais dura e incisiva, o que daria ao filme um outro tônus. Mas o que não se pode é negar a sua sinceridade de propósitos. De alguma forma, essa honestidade básica aparece na tela.

(Caderno 2, 25/1/08)