O sentido profundo daquela noite de 1967
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O sentido profundo daquela noite de 1967

Luiz Zanin Oricchio

30 Julho 2010 | 12h29

SERGIO RICARDO

Os diretores de Uma Noite em 67, Renato Terra e Ricardo Calil, não eram nascidos quando as paixões musicais e políticas ferviam no Teatro Record Centro, o antigo Teatro Paramount, lá na Avenida Brigadeiro Luis Antonio. Não eram nascidos, mas hoje admiram os protagonistas daquela aguerrida batalha musical-ideológica típica dos anos 60 – Chico Buarque, Edu Lobo, Gilberto Gil e Caetano Veloso. Correndo por fora na lista de admirações, Sérgio Ricardo, o “vilão” da noite, que, implacavelmente vaiado por seu Beto Bom de Bola, quebrou o violão e atirou-o sobre a plateia.

Aqueles eram tempos, parecem dizer os diretores, quando um festival de música popular podia atrair a atenção do público de uma maneira tão fervorosa quanto uma partida final de Copa do Mundo. O clima era mesmo de antagonismo e aquilo que estava programado para ser apenas “um bom show de TV”, segundo um dos seus idealizadores, Solano Ribeiro, deixou-se gostosamente invadir pelas polêmicas do período. Ponto para os diretores que, embora não tenham vivido a época, foram sensíveis às suas contingências históricas.
Quais eram? Duas em especial, e interligadas. Primeiro, a insatisfação com a ditadura militar instaurada em 1964 e, em 67 se encaminhando para o acirramento, o que aconteceria no ano seguinte. Segundo, a controvérsia entre a cultura “genuinamente” brasileira e a abertura para a música pop internacional. O público dos festivais, universitário em sua maioria, era todo contra o regime: as músicas de protesto, com seu tom épico e letras contestatórias veladas, falavam em nome desse público. Daí o favoritismo de Ponteio, de Edu Lobo e Capinam, com sua alegoria revolucionária. Já o segundo tema era um tanto mais controverso.

Podia-se dizer, naquela época, que a guitarra elétrica era emblema do “imperialismo norte-americano”. Mas a originalidade com que Caetano, com seu Alegria Alegria, e Gil, com Domingo no Parque, anunciavam a fusão de linguagens era tão fascinante quanto uma canção revolucionária.

De qualquer forma, esses dois grupos de canções – Ponteio e Roda Viva de um lado, Alegria, Alegria e Domingo no Parque de outro – assinalam os pontos de cisão da música brasileira, dividindo-a entre os puristas de esquerda e os adeptos do diálogo com o pop. A seguir, os primeiros seriam chamados de “velhos e ultrapassados”, embora tivessem 20 e poucos anos de idade; os outros, Gil e Caetano, dariam início ao Tropicalismo, linha evolutiva da MPB sob as bênçãos da vanguarda estética brasileira (entre eles os Campos brothers e maestros como Julio Medaglia e Rogério Duprat).

Num ano em que Glauber Rocha lançava Terra em Transe e Zé Celso montava O Rei da Vela, aquele “simples show de TV”, encenava toda a paixão e todo o drama de um país cindido. É muito bom que o filme tenha captado esse sentido profundo daquela noite de 1967.