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O Segredo dos seus Olhos

Luiz Zanin Oricchio

26 Fevereiro 2010 | 08h52

O argentino Juan José Campanella (de O Filho da Noiva e Clube da Lua) conduz com a habitual habilidade narrativa este O Segredo dos seus Olhos, concorrente ao Oscar de melhor filme estrangeiro. A história se passa em dois tempos. Em 1974, uma moça recém-casada é estuprada e morta por um desconhecido. Um oficial de justiça, Benjamim Espósito (Ricardo Darín), se interessa pelo crime; faz dele uma obsessão e tenta encontrar o culpado. Dando um salto de 25 anos, encontramos o mesmo Espósito, já aposentado, escrevendo nas horas vagas um romance sobre o caso.

Acontece que o filme não trata apenas da investigação. É, ou deseja ser, muitas coisas ao mesmo tempo, como um canivete suíço. Embute na trama um traço tragicômico através da figura de Sandoval (Guillermo Francella), o auxiliar alcoólatra de Espósito. Também quer ser uma história de amor inconcluso entre o oficial de justiça e a juíza Irene (Soledad Villamil). E não deixa passar em branco o período da ditadura militar argentina e suas repercussões sobre a vida dos cidadãos comuns. Como nos tais canivetes, também no filme algumas lâminas funcionam melhor do que outras.

Mas não é nem a diversidade de temas que atravanca O Segredo dos seus Olhos, mas a maneira como Campanella costuma narrar. Como de hábito, seus personagens falam demais, e o tempo todo. Imagina-se que o roteiro publicado deste filme de 129 minutos teria umas quinhentas páginas, tal a quantidade de diálogos longos e, diga-se, muitas vezes inteligentes. Mas há um excesso retórico. Apesar da verbosidade, o ambiente de tensão é conseguido, muitas vezes, pelo tratamento fotográfico do craque Félix Monti (que andou trabalhando no Brasil). A linguagem cinematográfica é que soa às vezes meio quadrada, dando um ar retrô ao conjunto. Campanella chega até a ironizar a si mesmo, quando Espósito apresenta as provas de seu romance a Irene e esta diz que tudo parece meio antigo, cheio de clichês, com mãos encostadas dos lados opostos do vidro do trem à guisa de despedida, a mulher correndo rente aos trilhos e dando adeus, etc. O que leva Espósito a retrucar: “Mas não foi assim mesmo que ocorreu?”

Acontece que, na exata metade do filme, assistimos a um espetacular plano-sequência, com a câmera flutuando sobre um estádio de futebol onde talvez esteja o criminoso, depois localizando os protagonistas na torcida e fechando com uma cena de perseguição de tirar o fôlego. Nesses poucos minutos, o filme sai de sua rotina visual e cresce demais. O resto não esta à altura desse solo inspirado. Mas permanecemos com essas imagens na cabeça.