O mistério do coronel Fawcett
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O mistério do coronel Fawcett

Luiz Zanin Oricchio

12 de junho de 2010 | 17h06

fawcett

O que aconteceu ao coronel Fawcett? Essa pergunta vem sendo feita desde 1925, quando o oficial britânico Percy Harrison Fawcett desapareceu na selva brasileira, em companhia do filho, Jack Fawcett, e de um amigo deste, Raleigh Rimmel. A pequena equipe, comandada pelo coronel, embrenhou-se na selva em busca de uma mítica “cidade perdida”, que jamais chegou a ser encontrada. Desde então, as expedições de resgate de Fawcett, e depois de busca de seus restos mortais, se sucederam. A primeira foi organizada em 1928 pelo comandante George M. Dyott. Não deu em nada.

O caso Fawcett repercutiu também no campo literário e deu origem a uma bibliografia de tamanho nada desprezível. Entre as obras disponíveis no Brasil encontram-se A Verdadeira História de Indiana Jones, de Hermes Leal (Geração Editorial, 1996), e Z – a Cidade Perdida, de David Grann (Cia. das Letras, 2009), que será adaptada para o cinema, com Brad Pitt no papel do expedicionário inglês. A elas se junta agora uma pérola dessa estante consagrada a Fawcett – Esqueleto na Lagoa Verde, relato de Antonio Callado sobre sua viagem de 1952 ao Xingu, local onde o inglês teria desaparecido.

Reeditado agora pela Companhia das Letras em sua coleção Jornalismo Literário, o livro foi publicado pela primeira vez em 1953. Mantém interesse até hoje por alguns motivos, alguns óbvios, outros nem tanto. Em primeiro lugar, porque, apesar de as pesquisas sobre Fawcett terem continuado ao longo das quase seis décadas decorridas depois da publicação original, Esqueleto na Lagoa Verde ainda é capaz de expor ao leitor contemporâneo um panorama bastante completo do caso. Isso graças ao estilo objetivo e sintético de Callado, então jornalista do matutino carioca Correio da Manhã. Profissional dedicado, Callado fez direitinho a sua lição de casa para escrever o relato. Esteve in loco, como manda o figurino, e lá conversou com as pessoas envolvidas no caso. Nem por isso deixou de pesquisar e ler tudo o que havia disponível, antes e depois da viagem, com o objetivo de emprestar consistência à narrativa.

Além disso, entre a vasta produção dedicada a Fawcett, Esqueleto na Lagoa Verde destaca-se pela qualidade literária. Callado, já na época autor de ficção (havia escrito a peça O Fígado de Prometeu, em 1951), apurava seu estilo na reportagem, nessa coabitação às vezes tão problemática entre o jornalismo e a literatura (Hemingway dizia que o jornalismo era uma excelente profissão para um jovem escritor, desde que fosse abandonado a tempo).

Como resultado dessa sua experiência no Xingu, Callado tira uma excelente reportagem, na verdade uma das melhores já escritas sobre esse tipo de assunto. Revela-se jornalista de mão cheia. Mas constrói o relato do ponto de vista do escritor. Assim, como assinala o crítico Davi Arrigucci Jr. em um dos posfácios ao livro (o outro é do jornalista Maurício Stycer), Esqueleto na Lagoa Verde é, também, “uma espécie de desconstrução da reportagem tradicional”. De fato, em seu relato, Callado parece menos um detetive investigando em busca da verdade e mais um pesquisador cético, que avança em suas descobertas, mas a cada passo duvida de si mesmo, dos relatos e dos fatos que lhe são oferecidos pelas testemunhas.

Ambiente. Por fim, O Esqueleto da Lagoa Verde mostra o futuro grande romancista Antonio Callado em contato com o ambiente que lhe forneceria material para aquele que, para muitos, é sua maior obra (ou pelo menos a mais conhecida), o romance Quarup, publicado em 1967. No livro, uma reflexão sobre o Brasil da ditadura e da luta armada, reencontra-se a magia do Xingu e também personagens reais que Callado conhecera em sua expedição em busca dos restos de Fawcett. É o caso de Anta, exemplo, para ele, da maneira “estranha” como os índios exprimem suas ideias aos ouvidos “civilizados”. No romance, Anta seduz uma das personagens femininas, Sônia, que com ele foge, para pasmo dos companheiros brancos. Em mais de um aspecto, portanto, a viagem de Callado ao Xingu lhe forneceu elementos não apenas para a estrutura do romance, mas para sua visão de mundo. Lembre-se que, em Quarup, o centro mítico do Brasil, numa passagem de alto simbolismo, é o gigantesco formigueiro situado exatamente no meio do Xingu.

Enfim, a história de Fawcett tinha tudo para interessar ao ficcionista iniciante e jornalista experiente que era Antonio Callado naquele início dos anos 1950. Nascido em Devon em 1867, Fawcett era um aventureiro conhecido pelo destemor e pela resistência física. Operou no Ceilão, como agente do serviço secreto britânico, e foi lá que aprendeu as técnicas de sobrevivência na selva que lhe valeriam em suas andanças brasileiras. Foi amigo de Conan Doyle, o criador de Sherlock Holmes e era um típico expedicionário do Império Britânico, aquele sobre o qual o sol nunca se punha. Fawcett esteve no Brasil pela primeira vez em 1906, numa viagem da Royal Geographical Society organizada com a finalidade de mapear a Amazônia. Depois desta, realizou mais sete expedições pelo Brasil, até desaparecer, em 1925. O que o movia era a obsessão em encontrar a tal cidade perdida, que ele chamava de Z, e segundo os relatos, poderia se encontrar tanto em Mato Grosso como na Bahia.

Nas décadas seguintes ao desaparecimento foram formadas várias expedições de resgate, sem qualquer sucesso. A verdade sobre o fim de Fawcett, Jack e Rimmel perdia-se no cipoal de versões contadas pelos índios. Fawcett tornara-se lenda, objeto de relatos míticos que se complementavam ou se contradiziam entre si. Havia quem sustentasse, muito anos depois de sumir sem deixar traço, que Fawcett estaria ainda vivo, morando com os indígenas depois de ter se desiludido com a civilização ocidental da qual provinha. Outras, que teria sido assassinado por índios depois de algum desentendimento. Em versões diferentes, teria sido devorado por canibais.

Em 1952, Assis Chateaubriand, capo dos Diários Associados, resolveu promover a sua própria expedição. Na verdade, Chatô já acompanhava o caso Fawcett com interesse desde a desaparição do aventureiro. Em 1943, uma missionária relatou ter encontrado um índio de pele clara e olhos azuis que seria filho de Jack Fawcett com uma índia. Chatô destacou seu repórter Edmar Morel, que foi ao Xingu e lá encontrou o índio Dulipé, apresentado aos leitores do Diário da Noite como “o deus branco do Xingu”. Dulipé foi levado à civilização, onde se comprovou não passar de um pobre índio albino. Morreu anos depois em Cuiabá, consumido pelo álcool.

O motivo da expedição de 1952 foi a notícia de que o sertanista Orlando Villas Boas tinha obtido dos índios calapalos a confissão de que haviam de fato assassinado Fawcett e seus companheiros em 1925. Admitiam o crime, depois de se certificarem que “os brancos não estavam mais brabos” com o sumiço de Fawcett. Indicaram também o local onde o corpo fora enterrado e lá uma ossada foi encontrada em cova rasa. Brian, o outro filho de Fawcett, veio da Inglaterra para acompanhar o desenvolver dos fatos. Chatô farejou uma grande história e destacou um time de repórteres da revista O Cruzeiro para a cobertura. Callado, que trabalhava no jornal Correio da Manhã, foi convidado para a missão. Levar um repórter do concorrente a tiracolo em uma cobertura sensacional – eis aí um fato inédito na história da imprensa brasileira, talvez mundial, e que só poderia passar pela cabeça heterodoxa de Chatô.

A história terminou em fiasco. Submetidos a exames antropométricos, os ossos não puderam ser identificados como sendo de Fawcett. A arcada dentária não corresponde e a altura não bate com os registros físicos que se tinham do expedicionário. Mesmo assim, Villas Boas manteve, até o fim da vida, a convicção de que aqueles ossos pertenciam ao aventureiro inglês. O sertanista conservou o esqueleto em sua casa, debaixo da cama, por 18 anos, até que, pressionado por sua mulher, enviou-o ao Instituto Médico Legal da USP, onde espera por um teste de DNA que os remanescentes da família Fawcett se recusam a realizar. Permanece o mistério. E, portanto, continua o estímulo para boas histórias em torno do caso. Tudo é mito.

(Sabático, 12/6/10)