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O Segredo das Águas

Luiz Zanin Oricchio

20 Janeiro 2015 | 10h36

O Segredo das Águas. de Naomi Kawase, tem tudo para agradar a certa expectativa contemporânea em termos de equilíbrio com a natureza. E também para ser mandado às urtigas sob o rótulo genérico de new wave, ou ecologista-filosófico ou qualquer dessas tendências desacreditadas apriori por gente de espírito prático (em geral alinhada, politicamente, à direita, mas esta é outra história).

O que temos na tela é uma ilha japonesa na qual as tradições e culto à natureza são mantidos. Há a presença muito forte – diria, a onipresença – do mar, e também dos ciclos das estações. Na história, vemos um casal de adolescente que descobre a sexualidade, enfrenta conflitos com pessoas mais velhas e vê-se envolvido num mistério quando um cadáver dá na praia. Bem pensado, é uma versão oriental, e mais original, de Ventos de Agosto, recém-lançado filme do brasileiro Gabriel Mascaro e que aborda temas afins. Até mesmo a presença de um cadáver seria uma semelhança, mas é claro que, quando se fala do ciclo da vida, amor e morte estejam sempre presentes, como polos contrários e complementares de um todo maior.

O estofo, digamos assim, filosófico, do filme, não nos deve enganar. Não se trata de um desses produtos meio espúrios, no qual a busca de harmonia se dá pela via da ignorância dos conflitos. Há, nele, todos os confrontos que se quiser, a começar pelo relacionamento tumultuado do adolescente Kayto com a mãe. E também a maneira como enxerga, e também se relaciona, com a figura do pai, separado da mãe, e vivendo em Tóquio. Kayto pode ter todos os problemas de um adolescente filho de pais separados e mais este – mora com a mãe numa ilha meio perdida enquanto o pai vive no olho do furacão urbano, a superpovoada e agitada Tóquio. São mundos mais opostos – contraditórios. E Kayto tentará processar mentalmente essa oposição radical.

Agora, se existem confrontos, também há esse traço oriental que (ainda) é bem diferente dos ocidentais. Observamos como existe um convívio mais fluido entre gerações diferentes, e mesmo entre jovens e idosos, enquanto no Ocidente a praxe é a formação de guetos estanques, cimentados pela identidade etária. Jovem fala com jovem e despreza os mais velhos. Estes olham os moços com infinita desconfiança e superioridade. No Oriente, parece haver mais pontes e atalhos entre as gerações. Pelo menos no filme é assim, com a presença do velho pescador que dialoga com o casal de jovens.

É como se meditasse sobre a relatividade dos problemas deste mundo que, quando acontecem, parecem de importância transcendental, mas, vistos à distância, recuperam sua verdadeira dimensão. Diminuta, na maior parte das vezes. Desse modo, Naomi Kawase busca essa sabedoria simples, do bem viver, da aceitação das diferenças e do inevitável desgaste de tudo.

Dito isso, o que seduz em O Segredo das Águas é o seu fluxo narrativo. A maneira como os acontecimentos e sensações se encadeiam, em ritmo sereno. Como se a diretora não experimentasse qualquer necessidade de pressa, ou de exibicionismo. Tudo flui. Equivale a dizer que a essência do que o filme tem a dizer está em sua própria narrativa. Passa ao espectador essa sensação de serenidade que parece ser a visão de mundo da diretora. Ou sua aspiração maior.

 

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