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O sambista e o bibliófilo

Luiz Zanin Oricchio

01 de março de 2010 | 13h54

O Brasil perdeu este fim de semana dois homens elegantes, o bibliófilo José Mindlin e o sambista Walter Alfaiate. Tive a sorte de conhecer a ambos, ainda que superficialmente. Conversei com Mindlin uma vez, antes de um concerto no Teatro de Cultura Artística. Era uma apresentação do Quarteto Alban Berg, lembro bem. Walter me foi apresentado no aniversário de um grande amigo, o Mauro Dias. Mindlin e Walter eram duas pessoas excepcionais, que viviam sem parecer ter consciência que de fato eram foras-de-série.

De Mindlin fica o exemplo de que o saber não precisa e não deve ser pomposo. Pelo contrário. Ler – que era o que mais gostava de fazer – é, antes de tudo, um ato de profundo prazer. Acho que caminha por aí o tal estímulo à leitura, que se perde nessas inócuas campanhas de incentivo. Estas fazem a leitura parecer uma obrigação, algo solene, privativo de sábios, ou caminho que deve ser seguido, ainda que com muito sacrifício, porque trará recompensas, etc. Que nada. Ler é um grande barato. Era o que Mindlin sempre dizia, talvez sem usar essas palavras. E praticava o que dizia. Além disso, era um homem rico com sentido público, raridade extrema neste País. A prova foi legar seu magnífico acervo à USP.

Walter tinha seu ateliê em Botafogo e era refinado como o time de General Severiano nos anos de Garrincha e Nilton Santos. Que eu saiba, gravou apenas um CD, delicioso, que tenho em casa com seu autógrafo. No ano passado, ganhou um ótimo documentário sobre sua carreira. Leia aqui. Morreu com discrição. Como cabia.

Dois homens elegantes em um Brasil que anda carente dessa qualidade fundamental.