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O sabor dos bastidores do show biz

Luiz Zanin Oricchio

05 Janeiro 2007 | 13h58

Paulo Machado de Carvalho Filho lembra histórias que testemunhou em São Paulo, como diretor de TV e empresário

Luiz Zanin Oricchio

É uma São Paulo de outros tempos que emerge da leitura deste Histórias… que a História não Contou, de Paulo Machado de Carvalho Filho (Companhia Editora Nacional, 200 págs. R$ 45, organizado por Carlos Coraúcci). Uma São Paulo do rádio e da fase heróica da televisão, mais glamurosa, sede de grandes momentos da música popular brasileira e que conseguia atrair para cá celebridades do star system internacional da época, como Marlene Dietrich, Nat King Cole, Maurice Chevalier, Louis Armstrong e Sammy Davis Jr.

O livro não é uma autobiografia de Machado de Carvalho, filho do célebre Marechal da Vitória da Copa de 1958 – é mais um apanhado de casos que ele, como diretor de rádio e televisão, e empresário de sucesso, viveu e agora relata. O volume vale não apenas pelas histórias divertidas, mas também pelo material fotográfico que o ilustra. O autor viveu, como ele diz, 50 anos enfurnado no meio artístico. Sua experiência começa nos anos 40, portanto na época pré-TV do show biz brasileiro, ou que nome pudesse ter essa atividade em sua fase incipiente.

O mais saboroso da prosa de Paulo Machado de Carvalho, ou Paulinho, como amigos e funcionários o chamavam, está no relato dos bastidores das grandes contratações que traziam ao País os astros da época. Ficamos sabendo, por exemplo, que a passagem do mitológico Louis Armstrong por São Paulo foi das mais tumultuadas. Hospedou-se o monstro sagrado no Hotel Jaraguá, então o melhor da cidade, e estrategicamente localizado próximo do Teatro Paramount, na Avenida Brigadeiro Luis Antonio, onde ele iria se apresentar. Só que na hora do espetáculo, teatro lotado, o astro não aparecia. O empresário foi ao hotel, acompanhado de um amigo forte, um certo Vavá. Encontraram o Satchmo em seu quarto, com uma máscara de beisebol na cabeça e dizendo que não iria. Vavá disse apenas que ele se aprontasse o mais rápido possível, pois se não fosse tocar iria apanhar e muito. Diante de tal argumento, Armstrong reconsiderou e foi ao teatro, onde entrou sob vaias devido ao atraso. Mas, quando tirou do trompete mágico as primeiras notas do St. Louis Blues, tudo lhe foi perdoado.

Outro que deu alteração foi Sammy Davis Jr. Paulinho foi chamado ao telefone e o gerente do hotel lhe disse que havia ‘um probleminha’ com seu hóspede. O probleminha é que Sammy havia ligado para uma namorada na Suécia e o curso tomado pela conversação aparentemente não o agradou. Tanto assim que destruiu, minuciosamente, a suíte onde estava hospedado.

A já madura Marlene Dietrich esteve aqui em 1959 e marcou a estadia paulistana por uma excentricidade. Dias antes do espetáculo, La Dietrich, perambulando pela noite da cidade, conheceu um playboy local que se notabilizava por andar para lá e para cá em companhia de um lince de estimação, preso a uma coleira. No dia da estréia do espetáculo, Marlene exigiu que se arrumassem dois lugares, e na primeira fila, para o amigo e seu bichinho. E assim foi feito, senão não haveria show.

Não falta espaço no livro para o casting nacional. Paulinho Machado de Carvalho fala da cantora Maysa e de como conseguiu contratá-la durante uma bebedeira. O empresário fingia que bebia, e Maysa, bem, quem a conheceu sabe que entornava como gente grande. Vemos o retrato de Hebe Camargo em seu início de carreira, nos anos 40, e também a do hilário Adoniran Barbosa, que, como recorda o autor, além de grande compositor, era cômico de mão cheia e chegou a trabalhar no cinema, em O Cangaceiro.

Também são lembrados os festivais de música popular e sua importância naquele momento histórico do País. Machado de Carvalho recorda o episódio célebre da disputa entre A Banda e Disparada, no Festival da TV Record de 1966, em que se adotou a decisão salomônica de dividir o prêmio entre as duas canções.

O livro não é uma análise de período e nem uma História sistemática dele. São apenas histórias, com agá minúsculo, relatadas com muito sabor por uma testemunha privilegiada, que viveu para contá-las.