O ‘Robocop’ de Padilha não é lá essas coisas
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O ‘Robocop’ de Padilha não é lá essas coisas

Luiz Zanin Oricchio

21 de fevereiro de 2014 | 14h51

Não nego: há coisas interessantes no Robocop de José Padilha.

Por exemplo, a discussão sobre se as máquinas podem matar ou não. Já presente no primeiro Robocop, o debate está embutido no belo livro de Isaac Asimov, Eu, Robô, transformado em filme medíocre.

A cobiça das corporações. A ideia, tanto no primeiro como neste Robocop é que o uso de máquinas no combate ao crime permite a expansão do mercado para os tiras de lata. E, como se sabe, o mercado é tudo.

A relação entre máquina e homem e a questão do livre-arbítrio. É uma questão em aberto quando se fala em inteligência artificial. A solução do filme é apaziguadora: “o fator humano sempre acaba por se impor, etc.” Não estou tão certo. E o caminho do filme parece bastante forçado neste ponto. Faltou inquietação mental. Talvez a indústria não esteja preparada para esse tipo de dúvida.

A imprensa sensacionalista e o poder econômico e político. O personagem de Samuel L. Jackson é o mesmo de André Mattos em Tropa de Elite 2, mas sem a mesma graça. Faltou o carioquismo do personagem brasileiro. Figura, de maneira esquemática, as relações perigosas entre mídia e poder econômico. Importante, mas o tratamento tem a profundidade de um pires.

A relação com o corpo próprio. O desconforto do Robocop com a ausência do corpo físico. É, provavelmente, o melhor momento do filme, quando o personagem descobre o que restou do seu corpo original sob a armadura de aço. Confesso que foi o único momento em que o filme me tocou. Pela angústia.

O que há de muito ruim começa pelo excesso de cenas de ação. Estas são o pedágio obrigatório que os blockbusters cobram aos cineastas. Mesmo que o diretor tenha ideias originais, vê-se obrigado à sucessão interminável de lutas, corridas de carro, toneladas de vidros quebrados, explosões, etc. O cinema digital facilitou tudo e provavelmente barateou as produções. Com isso levou as cenas de ação ao paroxismo. No meu caso, provocam tédio mortal. Fico divagando enquanto eles se entredevoram, à espera que a trama tenha seguimento.

Pior ainda, em certo sentido, é o simplismo do desenvolvimento de alguns temas legais, como os vistos acima. Padilha não prima pela sutileza e nem pela complexidade. Gosta das coisas “pão pão, queijo queijo”, sem muitas nuances ou elementos contraditórios. Nunca é dialético. Basta rever seus dois Tropas de Elite, que têm qualidades, mas nunca a virtude da complexidade. O Robocop é um super Capitão Nascimento, sem o carisma de Wagner Moura.

Essa falta de profundidade, característica do cinema de Padilha, mostrou-se muito bem adaptada à “filosofia” dos blockbusters norte-americanos. Por isso acho irrelevantes reportagens triunfalistas que descrevem Padilha como uma espécie de herói do 3º Mundo que conseguiu se impor à vontade dos estúdios. Descreio.

Por outro lado, não concordo em nada com colegas que comparam, de maneira depreciativa, o Robocop de Padilha ao de Verhoeven, tido por eles como um “clássico”.

“Clássico”?, pergunto eu. Ora, vamos ter um pouco mais de respeito com as palavras! Revi outro dia o primeiro Robocop. Um filme ok. E nada mais.

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