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O rigor do cinema de Jacques Rivette

Luiz Zanin Oricchio

03 de julho de 2013 | 10h48

Bastaria a presença de um inédito no Brasil – 36 Vistas do Monte Saint Loup (quinta-feira, 19h30) para justificar a mostra Jacques Rivette – Já Não Somos Inocentes  – , de hoje a 21 no Centro Cultural Banco do Brasil.

36 Vistas foi apresentado em 2009 no Festival de Veneza e até agora não despertou o interesse de nenhum distribuidor brasileiro. Talvez não seja mesmo filme fácil, palatável para o atual gosto cinematográfico. Mas é um beleza. Beleza estranha, diga-se. Na “história”, uma trupe de circo mambembe, provavelmente fazendo sua última viagem, chega a uma cidade no sul da França. Kate (Jane Birkin), filha do dono, junta-se ao grupo. A trupe desperta o interesse de um italiano em viagem, vivido por Sergio Castellitto. Mas talvez ele se interesse mais por Kate do que pelo resto. Talvez.

A trupe exibe-se para uma plateia vazia. O tom é melancólico. Adivinhamos, ou melhor, pressentimos que existe alguma coisa no passado de Kate. A atmosfera é de thriller, se damos importância ao mistérios dos sentimentos humanos. Como sempre, a filmagem de Rivette é límpida, sem truques. Maravilha.

Mas, claro, há muito mais. Esta é, até aonde a memória pode alcançar, a mais completa retrospectiva de Jacques Rivette no Brasil. Lembremos – Rivette é um dos cinco nomes centrais da nouvelle vague; ele e mais Godard, Truffaut, Chabrol e Rohmer. Alteraram o status quo do cinema de autor nos anos 1950 e 1960, primeiro como críticos dos Cahiers du Cinéma; depois, como realizadores. Têm discípulos fieis (e não raro fanáticos) até hoje.

Se a retrospectiva contém o mais recente longa-metragem de Rivette, traz também o primeiro, Paris nos Pertence, de realização problemática (1958 a 1961) e decodificação idem. Em belíssimo preto e branco constrói uma rigorosa trama conspiratória que soma o impulso de liberação a temas da política internacional do momento. Nos lembra aquele frescor dos primeiros trabalhos da nouvelle vague (filmagem nas ruas, câmera na mão, etc.) e, ao mesmo tempo, já indica que Rivette era um dos mais intelectualizados do grupo inicial.

Logo no primeiro dia, ao lado de Paris nos Pertence, temos os documentários sobre Jean Renoir, o cineasta ídolo da turma. Como se sabe, o grupo foi fundado pela negação do cinema francês então contemporâneo. Como toda revolução, ela precisava de uma ruptura e também de um pai fundador para estabelecer uma linha evolutiva; Renoir era esse nome. No documentário Jean Renoir, o Patrão, dividido em três partes, estuda-se essa linha de continuidade.

Não deixe também de ver o Rivette em seu diálogo com a literatura francesa. De Denis Diderot, ele adaptou A Religiosa. E, de Honoré de Balzac, A Bela Intrigante e Não Toque no Machado. Três obras rigorosas, sem qualquer concessão.

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