O resfriado de Sinatra *
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O resfriado de Sinatra *

Luiz Zanin Oricchio

09 de dezembro de 2015 | 18h51

* Escrevi o artigo abaixo para o centenário de Frank Sinatra. Como na versão impressa o texto saiu muito cortado, coloco-o aqui na íntegra, caso alguém se interesse em lê-lo do princípio ao fim. Ele se refere a uma famosa reportagem de Gay Talese, “Frank Sinatra Está Resfriado”, uma das peças de resistência e exemplo do assim chamado “jornalismo literário”. Ou do bom jornalismo, pura e simplesmente. Boa leitura!

sinatra

Em 1965, o jornalista Gay Talese foi enviado a Los Angeles pela revista Esquire para entrevistar Frank Sinatra. Tudo havia sido acertado com o assessor de imprensa do cantor. Mas, ao chegar ao hotel, Talese recebe um telefonema desmarcando o encontro. Sinatra andava ressabiado com notícias de suas supostas ligações com a máfia e, além de tudo, estava resfriado.

Resfriado? Para mim ou para você isso não é desculpa para qualquer coisa, menos ainda para faltar ao trabalho. Mas para “The Voice” era uma tragédia. Afinal, o prosaico vírus influenza tinha capacidade de irritar narinas e a garganta do mais famoso cantor norte-americano e debilitar assim seu precioso instrumento de trabalho. Ainda mais quando havia em sua agenda a gravação de um especial para a TV e um disco para os próximos dias.

O que fazer? Desistir da pauta? Não. Simplesmente cumpri-la de outra maneira. Pelas bordas, digamos assim. Privado de se encontrar com seu personagem, Talese procurou falar com diversas pessoas que faziam parte do estafe do artista, seus conhecidos, funcionários, amigos e parentes. Talese conversa, de modo aparentemente informal, com essas pessoas. Convida-as para almoçar e jantar. Jamais grava essas falas (para não intimidá-las) e quase nunca toma notas. Isso ele faz no fim do dia, no seu quarto de hotel. Anota, transcreve tudo à máquina e arma um fantástico dossiê em torno do artista combalido pela gripe.

O editor da Esquire bancou as despesas, que, no final, somaram cinco mil dólares. Corrigidos pela inflação, quanto não seria isso hoje? Numa conversa por telefone, o editor Harold Hayes o tranquilizou. Não se preocupasse com as despesas, desde que estivesse conseguindo alguma coisa. Talese lhe disse que sim, mas não tinha certeza do que estava conseguindo. “Então fique por aí até descobrir”, lhe disse Hayes.

O resultado, a “coisa” que Talese afinal consegue, é um artigo de 55 páginas, baseado em 200 páginas de anotações a acerca das mais de 100 entrevistas que fizera, com pessoas da entourage de Sinatra. O título do texto não poderia ser outro: “Frank Sinatra Está Resfriado” e saiu publicado na edição da Esquire de abril de 1966. Desde então se tornou um clássico do chamado “jornalismo literário”. Ou melhor, do que deveria ser o jornalismo, caso este não tivesse cedido à preguiça do declaratório, às urgências do dia a dia e ao corte de custos para reportagens de fôlego. O próprio Talese, em texto posterior, admite que o tipo de jornalismo que praticava caiu em desuso em face da nova realidade econômica: “A estrada se tornou muito cara. O escritor está em casa”. Poderíamos acrescentar: o repórter está na redação e não sai à rua.

“Sinatra Está Resfriado” é um exemplo contundente de como fazer do limão uma limonada. Caso a entrevista fosse aceita, seria mais uma entre milhares, com o cantor respondendo a perguntas e tentando construir um perfil sob o ângulo que lhe fosse mais favorável. Ao recusar-se, possibilitou a Talese construir esse perfil de forma multifacetada, pelas vozes de inúmeras pessoas que com ele conviviam. E também moldado pela capacidade de observação do repórter, que afinal acabou convidado para acompanhar as gravações do disco, mas sem direito a falar com o cantor.

Lemos o perfil de um personagem que, sob muitos aspectos, se assemelha a um capo mafioso, o que Talese chama de “lado siciliano” de Sinatra. Ele pode ser generoso ou cruel, frio ou caloroso, de acordo com as circunstâncias. É um homem de poder, que na Sicília são chamados de “uomini rispettati”. Homens de respeito. Centenas de pessoas dependem dele, do guarda-costas aos músicos, do agente de imprensa à senhora que cuida da sua coleção de 60 perucas, e sempre viaja em sua companhia. Sinatra faz tudo pessoalmente, como homem de respeito que é. Odeia a impessoalidade anglo-saxã. Compra os presentes de Natal dos funcionários, pois sabe os gostos de cada um deles. Pergunta pela saúde da família, sabe se os filhos estão bem encaminhados ou dando problemas. Aconselha e ouve queixas. Em troca exige respeito e dedicação total. É tudo ou nada.

Talese não se fixa apenas nesses detalhes, tão importantes para a compreensão de uma personalidade. Registra o grande cantor que, mesmo com a voz cansada (e combalida pelo resfriado), consegue expressar a emoção profunda dos períodos iniciais de sua vida em uma canção como I’m Fool to Want You. Através dessas evocações, reconstrói a trajetória do filho de emigrantes que, pelo talento e esforço, tornou-se o maior cantor de sua época. E o homem de poder do show biz, com ramificações pela política, mundo empresarial e sabe Deus quem mais. Talese não cede à fofoca, mas sabe que um perfil se constrói com grandes rasgos de caráter e também com pequenos elementos. Sinatra bebendo, ou jogando no cassino, ou convervando com mulheres ou fãs, ou brigando com papparazzi, ou filmando com Virna Lisi – tudo é tão importante quanto Sinatra  cantando com sua voz magnífica e a mais perfeita dicção de inglês que jamais se ouviu.

O perfil é “literário” apenas na maneira como é escrito. Talese checa os dados várias vezes e os coteja em depoimentos variados. Não inventa nem cogita. Trabalha com a “verdade”, ou o mais próximo que se pode chegar desta velha dama. O texto, refinado, depurado e trabalhado, possibilita uma aproximação inusitada a alguém tão famoso e super protegido como Frank Sinatra.

“Sinatra Está Resfriado” merece sua condição de clássico do jornalismo. Pelo menos do jornalismo de outros tempos. Hoje tudo se resolveria numa entrevista rápida e bem comportada e com respostas padrões a perguntas repetitivas. Ou, pior ainda, a uma dessas entrevistas a grupos de repórteres que, em seus textos, se esforçam para disfarçar a linha de montagem de que participaram. Talese fazia alta costura jornalística. O resto é prêt-à-porter.

 

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