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O ready-made de Eduardo Coutinho

Luiz Zanin Oricchio

30 de outubro de 2010 | 09h03

Foi um dos grandes acontecimentos da Mostra. Fila imensa na entrada do Cine Livraria Cultura no Conjunto Nacional. Nela, críticos, intelectuais, a fina flor do pensamento universitário, entre eles Ismail Xavier e Jean-Claude Bernardet. Para quê? Para ver o “novo filme” de Eduardo Coutinho, Um Dia na Vida. E por que as aspas? Porque Um Dia na Vida é quase um não-filme, parte de um projeto de pesquisa, que, ao que tudo indica, foi apresentado uma vez e nunca mais será revisto em público.

Em que consiste esse objeto estranho? Simples: em Um Dia na Vida, Coutinho gravou 19 horas da programação de vários canais da TV aberta e os editou em 90 minutos. Temos lá trechos de telejornais da Rede Globo, Chávez, programas policiais sensacionalistas como o de Wagner Montes, trechos de novelas, Márcia, televendas e pregadores evangélicos em abundância. Em síntese: um circo de horrores. O público riu em muitos momentos. Mas é claro que o balanço final de tantas imagens concentradas é bastante melancólico. Só não ficamos mais deprimidos, ao vê-las, por um óbvio instinto de autopreservação psicológica. É um retrato ampliado daquilo que é servido ao distinto público pelos canais abertos, ao longo de todo um dia.

A ideia é tão simples como genial. “Quis colocar numa sala de cinema, com o público, alguma coisa que não é destinada a isso”, disse Coutinho depois da sessão. O filme não pode ser repetido por causa do problema insolúvel dos direitos autorais. Mas esta exibição produziu impacto. Coutinho conseguiu esse efeito simplesmente deslocando um objeto do seu lugar usual – exatamente da mesma maneira de Duchamps ao colocar um mictório numa exposição de arte. Todo mundo sabe que a TV é um lixo – e ninguém mais presta atenção a isso. Colocá-la na tela grande do cinema, sintetizada e ampliada, devolve a todos a sensação do horror.

A sessão foi seguida por um debate entre o realizador e os cineastas Jorge Furtado e Eduardo Escorel. Furtado lembrou outro aspecto importante, já assinalado, mas esquecido – a fragmentação da TV. “No noticiário, um terremoto com centenas de mortos, passa, sem transição para um desfile de modas na Europa”. Tudo equivale a tudo. E, portanto, nada significa nada. O mundo da TV é um mundo de fragmentos soltos, aleatórios, sem contexto. É a proposta de um mundo sem sentido, alienado, despolitizado, robotizado. Sim, é uma velha discussão. Qualquer que seja o destino do material de Um Dia na Vida, Coutinho teve a virtude de recolocar essa discussão em pauta.