As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

O Quinto Poder, ou “Rouba, mas faz”

Luiz Zanin Oricchio

30 Novembro 2006 | 14h46

Uma das boas coisas deste Festival de Brasília foi ter podido assistir a uma raridade do cinema nacional – O Quinto Poder, filme de Alberto Pieralisi, que andava fora de circulação desde os anos 1960. Pieralisi foi um italiano que veio ao Brasil e dirigiu vários filmes, em especial na Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Talvez o mais famoso deles seja O Comprador de Fazendas, sobre um texto de Monteiro Lobato. Pieralisi já morreu. Quem estava na sessão, em Brasília, para apresentar o filme, era o produtor Carlos Pedregal, espanhol que morou muitos anos no Brasil.

Antes da sessão, Pedregal falou para uma platéia de cinéfilos, que já tinha ouvido falar dessa obra mas não a conhecia. Confesso que, em alguns trechos, a fala me pareceu meio delirante. Acontece que o tal do 5º poder, que está no título, diria respeito ao controle dos seres humanos por mensagens subliminares, troço que andou em voga nos anos 60. Segundo Pedregal, o filme, de 1962, participou do Festival de Berlim e várias pessoas entraram em contato com ele, querendo comprar os direitos de exibição. Mais tarde, continua Pedregal, ele descobriu que essa pessoas não eram ligadas ao cinema, mas eram sim agentes secretos, a serviço de potências estrangeiras. Estariam interessadas na tal da mensagem subliminar e o filme a teria retratado tão bem que queriam exibi-lo para os seus serviços secretos. Estou repassando o peixe para vocês pelo mesmo preço que comprei.

Enfim, sobre o filme: é a história de um grupo de alemães que tenta dominar o Brasil por meio de mensagens subliminares. Instalam um transmissor clandestino, que interfere no rádio e na TV, e passam a bombardear a população com mensagens – subliminares – de ódio. Quer dizer, mensagens aquém do limiar de percepção, mas que assim mesmo causam efeito sobre as pessoas. Quem está no elenco, novinha, é a atriz Eva Wilma.

E, por delirante que possa parecer a trama, o filme tem raras virtudes cinematográficas. Há cenas de perseguição de carros, cenas de ação em geral, muito bem realizadas. E, no final, um combate entre os alemães e os brasileiros, em cima da estátua do Cristo Redentor, que é de tirar o fôlego. Não sei se hoje um diretor de cinema teria capacidade de dirigir uma cena como essa. A influência óbvia sobre Pieralisi é o Hitchcock de Correspondente Estrangeiro e Intriga Internacional. O trabalho de câmera é sofisticadíssimo.

Mas o engraçado ocorreu depois da sessão. Quando saí do cinema, no Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília, liguei o celular e recebi a mensagem de que o ator francês Philippe Noiret havia falecido e eu deveria escrever um texto urgente para o jornal. Estressei. Estava longe do hotel e portanto do computador. A van do festival não chegava. A solução foi pedir uma carona para o Fernando Lemos, que já foi secretário de Cultura do Distrito Federal e é nosso amigo, meu e de minha mulher.

E lá fomos, no carro de Fernando, voando para o Hotel Nacional, onde eu estava hospedado. No caminho, Fernando falou de Pedregal. Disse que ele era, além de produtor de cinema, marketeiro político no tempo em que essa expressão nem mesmo existia. Ainda nos anos 50, foi chamado para fazer a campanha de Adhemar de Barros, que queria se eleger para o governo do Estado. Foi franco e disse ao candidato que seria impossível para ele se livrar da pecha de corrupto. A única solução seria assumi-la de vez. Nascia então a expressão: “Rouba, mas faz”, slogan que mais tarde seria aplicada a outros políticos, a um em particular, que eu e vocês sabemos quem é.

Esse, o Carlos Pedregal, produtor de O Quinto Poder. Filme que desejo ardentemente possa ser lançado no cinema, depois de tantos anos, ou pelo menos em DVD.