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O que “vemos” quando vemos os filmes? Micro-papo com Jean-Claude Bernardet

Luiz Zanin Oricchio

15 de fevereiro de 2007 | 20h25

No domingo vamos publicar no Cultura, do Estadão, um artigo em que Jean-Claude Bernardet fala dos filmes como “objetos mentais”. Na verdade, fala de um filme em particular, Aruanda, do paraibano Linduarte Noronha, que teve grande importância para o Cinema Novo e para o cinema brasileiro em geral. Que filme é esse, que “objeto mental” é esse? Aquele que foi visto em 1959-1960 por admirados críticos e cineastas do Sudeste? Ou aquele que vemos hoje, consagrado e com lugar na História assegurado?

Trocamos idéias por e-mail. A conversinha é um aperitivo para o artigo.

Pergunta: Jean-Claude, fico me perguntando se todos os filmes, ou pelo menos os mais marcantes, não figuram também como “objetos mentais”, segundo o seu conceito. E o papel das fortunas críticas sobre a construção desses objetos? Digo isso porque existe uma questão quando se fala, a meu ver um tanto ingenuamente, em “voltar aos filmes”, como se existisse um (estou sendo kantiano?) “filme-em-si”, independente de todas as projeções, teóricas ou não, que sobre ele se fizeram. Eu duvido um pouco, porque acho que a obra é ela e mais tudo que de significativo dela se disse e escreveu. Enfim, são questões.”

Jean-Claude:
“Verdadeiramente, sua mensagem levanta grave problema: o “filme em si”.
Que haja um objeto externo a partir do qual diversos observadores podem construir diversos objetos mentais, isto me parece indiscutível.

Mas que objeto é este? O filme, evidentemente. Mas o filme como objeto é um rolo de celulóide ou um disco. Para se tornar objeto cinematográfico para espectador, ele precisa ser projetado. E aí muda tudo. Condições de projeção, luminosidade, cópia desgastada, restaurada, adulterada, analógico ou digital. Você tem razão: o que seria esse filme em si?

Estou lendo um livro do historiador da arte especializado em Renascimento Daniel Arasse, que levanta um problema semelhante de 2 maneiras. Os quadros que ele estudou e viu em boas condições de visibilidade em museus e exposições, eram em grande parte quadros de igreja, quadros de altar, quadros localizados muito alto em salas de palácios. Portanto contemporâneos da produção desses quadros não os viram como nos podemos vê-los. E isso os pintores o sabiam e o levavam em conta. Havia pouca luz nas igrejas, sobre os altares sempre havia objetos e velas diante dos quadros, que ficavam distantes dos fiéis. Então o que vemos num museu quando vemos um quadro de altar bem iluminado? Outra questão que ele levanta: a pátina e as restaurações, as quais nunca reencontram os originais. E se as reencontrassem, os nossos olhos não são os dos contemporâneos da produção do quadro, portanto não poderíamos ver o que eles viam.

Zanin, você tem razão: quando vemos um filme, um quadro – o que vemos?”

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