O que Resta do Tempo
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O que Resta do Tempo

Luiz Zanin Oricchio

05 Fevereiro 2010 | 16h24

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O que Resta do Tempo vem sendo definido como uma comédia de humor negro. Tom que não deixa de ser adequado para compreender a situação no Oriente Médio – pelo menos enquanto essa situação não passa do cômico ao trágico o que, infelizmente, acontece com muita freqüência.

Para captar esse mood um tanto surrealista, Suleiman usa os diários do pai, que foi um resistente palestino, para compor um roteiro que nada tem de linear. Há também as cartas da mãe aos parentes quando a família foi obrigada a deixar a Palestina. Às memórias paternas e maternas, ajunta as suas próprias e, com esse material de ordem familiar, tenta traçar um panorama da situação naquela parte do mundo desde a criação do Estado de Israel, em 1948, até o presente.

A originalidade consiste em partir de um princípio não realista (o filme não pretende “imitar” a realidade), mas construí-la como se fosse um teatro de absurdo. Ou seja, afastando-se do realismo, O que Resta do Tempo aproxima-se do “real” literalmente inacreditável daquela situação – mais do que se tentasse ser verossímil e realista nas cenas de violência. Mesmo porque elas existem – e algumas são mostradas de maneira bastante crua, recordando a prisão do pai, resistente, pelos soldados israelenses, nos primórdios do conflito que segue até hoje.

Na maior parte do filme, no entanto, Suleiman (que trabalha também como ator na própria obra) procura um tipo de imagem que, pela clareza, mesclada à arbitrariedade de comportamento de alguns personagens interagindo, nos faz pensar em determinados sonhos que às vezes temos. Desconectados da relação causa e efeito do dia a dia, porém estranhamente límpidos. É essa sensação do sonhar acordado que produz o impacto cinematográfico.

Suleiman é o típico homem “entre duas culturas”, que se define por sua divisão e mesmo dilaceramento. Já foi chamado de cineasta árabe-israelense. Morou muitos anos nos Estados Unidos e procura uma compreensão não dogmática do conflito. Sua própria figura no filme, aparecendo no final para cuidar da mãe doente, é a imagem da perplexidade. De alguém que vê com espanto uma situação tão absurda que desafia não apenas a compreensão, mas a possibilidade mesma de ser representada por meios artísticos como o cinema.

Daí que a busca por caminhos, digamos, alternativos de representação seja nem tanto a natural procura pela originalidade, mas uma maneira de finalmente dizer uma palavra de peso sobre a situação política que atinge milhões de pessoas assoladas por um processo de guerra permanente. Esses caminhos, é bom situar, passam pelo que parece ser uma rede de influências muito bem assimiladas pelo cineasta – a saber, a comédia gráfica, que vai de Buster Keaton a Jacques Tati. Se Suleiman ator é quase tão calado quanto Keaton, Suleiman diretor busca, como Tati, soluções gráficas, no enquadramento e no movimento dos atores que assim “falam” por imagens e pelo corpo, tão ou mais do que pelas palavras.

Ou seja, há muito de construído em toda a maneira como O que Resta do Tempo é dirigido. São esquetes, divididas em quatro tópicos principais, que fazem a junção desse intimismo memorialístico com a política. Quer dizer, entre a história pessoal e a História do Oriente Médio. O filme é esse mosaico delicado, que contempla ora uma ora outra. Dizendo sempre o mesmo: que não se compreende a História sem olhar para os indivíduos que a sofrem, e não se compreende o sofrimento pessoal sem olhar para a História que o contextualiza. Suleiman consegue produzir esse duplo movimento sem qualquer costura intelectualista visível. O pensamento – que existe – jaz abaixo da superfície, para que o filme exista em sua plenitude.

E é claro, também, que muito do encanto de O que Resta do Tempo vem da imersão completa do autor em seu assunto. Essa origem memorialística que, transfigurada, imprime autenticidade ao relato. E nos faz ficar ao seu lado, segui-lo, rirmos e nos emocionarmos com ele.