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O que não diria o velho Nelson?

Luiz Zanin Oricchio

02 de julho de 2008 | 13h53

Vamos supor que o Fluminense ganhe a Libertadores hoje diante da LDU. Se fosse vivo, Nelson Rodrigues, tricolor de alma e corpo, diria que a vitória já estava escrita há 5 mil anos nas tábuas da lei. Caso perca, talvez dissesse que se trata de catástrofe comparável à de Canudos; ou que a data seria lembrada como a Hiroshima das Laranjeiras. Aconteça o que acontecer, não teremos quem cante a vitória, ou chore a derrota, com o sabor e a genialidade de Nelson Rodrigues.

Mas, também de qualquer forma, não existe, no presente, jogo que interesse mais ao futebol brasileiro do que esse. Mesmo se você não é Fluminense, mesmo se for Flamengo e estiver secando, mesmo se corintiano ou santista e portanto mais preocupado com a série B – mesmo assim, acho difícil alguém gostar de futebol e permanecer indiferente ao que vai acontecer no Maracanã hoje à noite. É jogo para se transformar em grande tragédia ou enorme consagração. Jogo para mexer com todo mundo. Com a cidade. Com o País inteiro.

Palpite? Acho que, apesar do primeiro tempo pífio em Quito, o Flu tem condição de reverter a desvantagem. E acho difícil que esse time leve e inspirado, um dos melhores do Brasil na atualidade, repita a partida chocha que fez no Equador. Ainda mais, como deverá ser o caso, quando empurrado por sua grande torcida no Maracanã. Em qualquer caso, deverá ser um grande jogo.Tenso e emocionante jogo, desses que o Campeonato Brasileiro tem nos sonegado sistematicamente.

Sim, porque é impossível deixar de observar o contraste entre competições como a fase final da Libertadores e da Eurocopa e o marasmo do nosso principal campeonato. Nesta rodada do fim de semana foram seis empates. Isso, em si, quer dizer pouco, pois existem empates exuberantes, cheios de adrenalina e emoção. Não foi o caso, pelo menos nos jogos que pude observar. Talvez a maior façanha da rodada tenha sido a do Flamengo, que derrotou o Sport na temível “Bombonilha” – perguntem ao Corinthians se ele sabe o que isso significa. Mas os empates entre Santos e Portuguesa, Cruzeiro e São Paulo, Fluminense e Botafogo, Grêmio e Internacional deixaram um perfume de tédio no ar.

E não me venham dizer que a culpa é do sistema de pontos corridos. Você pode ver excelentes e emocionantes jogos nesse sistema. Mas, para isso, é preciso haver motivação e qualidade técnica mínimas. Senão, com o perdão da palavra, a vaca vai para o brejo, como parece ir há tantos anos, sem se atolar de vez, mas sem conseguir se safar jamais do pantanal.

Pobre futebol brasileiro, que vem sendo, com razão, comparado desfavoravelmente ao da Europa. Eles, os “retranqueiros duros de cintura e escravos da tática”, se revelam criativos, inclusive consagrando uma seleção de toque de bola como a da Espanha. E nós passamos a ser os limitados, o paraíso dos volantes de contenção, beques de fazenda e atacantes inócuos.

Uma vez acabada a Libertadores, terminada a Eurocopa, e encerradas as celebrações da mais bela das Copas, a de 1958, é com o Campeonato Brasileiro mesmo que teremos de nos contentar. Chegou a hora de cair na real. E já que comecei com Nelson, termino com ele. O que não diria o mais nacionalistas dos escribas ao ver a Europa praticando o futebol ofensivo que o Brasil de hoje considera ultrapassado e não tem mais coragem de jogar? Que o mundo da bola está de pernas para o ar?

(Coluna Boleiros, 1/7/08)

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