O que essa gente quer da seleção?
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O que essa gente quer da seleção?

Luiz Zanin Oricchio

14 de outubro de 2008 | 14h35

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Vi duas reações opostas à goleada da seleção brasileira sobre a Venezuela. A primeira: “Agora sim, com Kaká o time é outra coisa e a seleção vai massacrar também a Colômbia no Maracanã”. A segunda: “Passar por cima da Venezuela é moleza; quero ver quando encontrar um time carne-de-pescoço pela frente, que não dê tanto espaço aos atacantes”. Quem tem razão?

Sem querer ficar no muro, acho que as duas opiniões têm lá suas razões de ser. Quem dispõe de um meia-atacante tão sólido quanto Kaká de fato não tem do que se queixar. Ele, indo ao gol na vertical, ao lado de um Robinho liso e driblador (e agora, parece, chutador mais eficiente) e mais um centroavante como Adriano ou Luís Fabiano formam um ataque difícil de conter. Kaká, em forma, faz, sim, toda a diferença.

Mas o fato é que a Venezuela deu espaço para ele e companheiros se movimentarem à vontade. Em especial porque tomou um gol logo aos cinco minutos, o que, se sabe, altera toda a proposta tática de um time. Não posso acreditar que a Venezuela tivesse a intenção de encarar o Brasil de igual para igual, iludida por aquela inédita vitória por 2 a 0 em jogo amistoso. Como tomou gol muito cedo, viu-se obrigada a ir para a frente mais do que talvez quisesse. Mas também é fato que o primeiro gol do Brasil, na arrancada de Robinho que serviu a Kaká, saiu porque a defesa da Venezuela foi pega no contrapé. Estava desarrumada porque o time atacava quando perdeu a bola. São contingências de jogo. Assim como podem ter sido contingências de jogo a vitória fácil, os gols bonitos, o tão esperado show, em suma. Show que, diga-se de passagem, todo treinador pragmático (Dunga é um deles) sempre nega ter como objetivo. “O negócio é ganhar, quem deseja espetáculo vá ao Teatro Municipal”, proclamou, com o humor costumeiro, o também pragmático Muricy Ramalho na semana passada.

Vamos dizer que o Brasil vença e dê show também amanhã. Não acho provável, porque a Colômbia é um pouquinho melhor do que a Venezuela. Mas também não é impossível. O que vai acontecer? Tudo o que até agora se falou sobre a seleção será arquivado? Por exemplo, que ela perdeu a identificação com a torcida porque quase todos os jogadores são “estrangeiros”, que o time nunca joga por aqui, que atletas milionários não têm amor à camisa e não sabem incluir-se em uma grande tradição, que abandonou um estilo de jogo característico, etc., etc. e tal?

No limite, podemos perguntar: se a seleção jogar bem, como jogou no domingo, todas as críticas se desfazem? Porque é disso que se trata no fundo: é certo julgarmos as coisas apenas pelo resultado, mesmo no futebol, para muitos a mais prática das atividades porque quem vence tem sempre razão?

Cada um de nós terá sua resposta a essas perguntas. Eu tenho a minha: para a seleção brasileira não basta ganhar e ponto final. Precisa ganhar, mas jogando no estilo a que nos acostumamos. Jogando bonito, como jogaram as seleções de 58, 62 e 70. Como o Santos de Pelé, o Flamengo de Zico, o Botafogo de Garrincha, o Cruzeiro de Tostão, etc. Do nosso jeito. Só nos satisfazemos com isso. Mas essa é apenas uma opinião. Segundo essa filosofia (de futebol e de vida), o que desejamos da seleção? Respondo de maneira ostensiva: desejamos tudo. O resultado e o espetáculo. O pão e o circo. A eficácia e a arte. O feijão e o sonho. Menos que isso não serve.

(Coluna Boleiros, 14/10/08)

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