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O que é um matador?

Luiz Zanin Oricchio

28 de abril de 2009 | 12h15

Certa vez assisti a um filme sobre Zinedine Zidane. Várias câmeras seguem o jogador numa partida contra o Villarreal, quando ele atuava pelo Real Madrid. Zidane é o único personagem que importa. Vemos de perto o que ele faz com a bola e também acompanhamos o seu jogo sem a bola, a maneira como se desloca, abrindo brechas na defesa adversária para que seus companheiros aproveitem. Enfim, uma aula de futebol. De futebol-arte.

Estive na Vila Belmiro acompanhando Santos 1×3 Corinthians e prestei bastante atenção em Ronaldo. Aquele tipo de atenção apenas possível quando se está no campo, pois a televisão limita-se a acompanhar a bola. Pois bem, um filme como o de Zidane, realizado com Ronaldo, se arriscaria a matar o espectador de tédio. Ronaldo parece ausente a maior parte do tempo. A bola pode passar a dois metros e ele apenas a contempla. Caminha de lá para cá, calmamente, em aparente apatia. É uma fera veterana, armando o bote, e reservando para ele as energias ainda disponíveis. Mais uma vez: é uma aula de futebol.

Porque quando Ronaldo sai de sua aparente inércia, se abate sobre o adversário como um velho tigre sobre a presa. Na hora dos gols, me lembrei de Muhammad Ali derrotando, por cansaço, o muito mais forte George Foreman, em 1975, no Zaire. Lembrei também de uma música de Caetano Veloso que fala de Ali e o chama de “impávido”; fala também de como Bruce Lee era “tranquilo e infalível”. Ronaldo, nesses momentos, me pareceu tão técnico quanto Ali, tão eficaz quanto um lutador de artes marciais, tão experiente quanto uma fera errante do deserto.

Sim, porque, bem observados, seus gols foram dois golpes secos e fatais. No primeiro, a difícil matada de um chutão vindo da defesa, acomodando já a bola para o pé esquerdo e finalizando com arremate preciso. O segundo, uma pintura, sai do corte de chaleira sobre um desconcertado zagueiro e termina com o toque, por cobertura, sobre o goleiro adiantado. Duas joias sem jaça. Vamos admitir, meus amigos santistas: por mais que tenha doído, foi um privilégio testemunhar jogadas como essas em plena Vila Belmiro. Elas liquidaram com o jogo (e com o campeonato), de forma definitiva e serena, como faz um matador com seu miúra nas arenas da Espanha. Quando voltarmos a usar no futebol essa palavra, importada das touradas de Madri, vamos, por favor, reservá-la a quem a merece. São muito poucos, de fato, que podem ser chamados de “matadores”.

Não se pode ainda dizer que o Corinthians é campeão apenas por uma questão de aritmética e porque o futebol é o futebol. Mas qualquer um sabe que as chances do Santos são apenas teóricas. Mesmo porque o Corinthians de Mano Menezes é equipe de sistema defensivo muito bom, um time que não perde e, muito menos, por três gols de diferença. O Santos faria melhor se começasse a pensar no Campeonato Brasileiro, já que nem a Copa do Brasil lhe restou.

E a desclassificação da Copa do Brasil foi o grande vacilo do seu técnico, o talentoso Vágner Mancini. Mancini deu cara nova ao Santos e levou o time a duas brilhantes partidas contra o Palmeiras. Depois esnobou o CSA e caiu. Contra o Corinthians, subestimou Ronaldo e permitiu que a marcação sobre o atacante fosse frouxa. Foram dois erros capitais. Tomara esses fracassos seguidos não interrompam sua carreira no Santos, que tem tudo para ser brilhante. É, repito, competente e talentoso. Porém, sujeito a erros graves de avaliação. Precisa meditar.

(Coluna Boleiros, 28/4/09)

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