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O que buscamos num filme?

Luiz Zanin Oricchio

13 Março 2007 | 16h33

Outro dia, a Ilustrada deu uma matéria bastante boa sobre os motivos de fracasso do filme Antônia, de Tata Amaral. Sem dar uma de engenheiro de obras feitas, eu mesmo, neste blog, assim que saíram os primeiros resultados negativos, disse que logo surgiria o diagnóstico inevitável: cinema é visto pela classe média e esta não quer ver pobre na tela. Nem violência urbana, periferia, dificuldades, etc. Isso as pessoas já têm de sobra na vida real e nos noticiários de TV. Essa ordem de razões é evocada na reportagem, ao lado de outra, mercadológica – Antônia teria sido superestimado pelos distribuidores, sendo lançado com muito mais cópias do que deveria.

Nada disso é errado. Mesmo porque, provavelmente, as causas de um fracasso (ou de um sucesso) são sempre múltiplas. Mas a meu ver, o argumento de que “não se vai a filme de pobre”, embora indique um preconceito real existente na classe média, não convence de todo. Por exemplo, não explica por que filmes como Cidade de Deus e Carandiru foram grandes sucessos de público.

Sem desprezar os fatores mercadológicos e os preconceitos envolvidos, acho que os motivos podem estar em outra parte. Refiro-me à linguagem utilizada pelos filmes. Cidade de Deus, no caso, é emblemático. Ao contar sua história de uma maneira pop, videoclipada em muitos momentos, com muita ginga e fluência narrativa, Fernando Meirelles e sua equipe conseguiram superar a hipotética desvantagem do tema: favela, drogas, violência, etc…E com o rendimento extraordinário de um elenco então amador, conseguiu superar o outro empecilho – o dos “atores de quem nunca se ouviu falar”.

Não digo que o tema não seja importante no momento em que um espectador procura um filme para ver. Mas é possível que a maneira como se conta a história – quer dizer, o estilo com que esse tema se articula em linguagem de cinema – pode ser mais importante ainda. É o que faz o boca a boca de um filme. Lembro na época de Cidade de Deus de jovens recomendando aos amigos, e meio que usando a linguagem do Zé Pequeno: “o filme é do c…, não dá para perder”. O tema não entrava na ordem de consideração. O filme era “duca”, como se dizia na época do Pasquim, e isso é o que importava. Filme que quer emplacar precisa gerar esse tipo de reação. O que não quer dizer que Cidade de Deus sirva como modelo para outros filmes. Cada cineasta deve encontrar sua linguagem. E precisa encontrar cúmplices para ela. Pelo menos se o público fizer parte do seu projeto, o que nem sempre é o caso.