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O processo civilizatório brasileiro: o caso do prior de Trancoso

Luiz Zanin Oricchio

31 Maio 2012 | 10h01

SENTENÇA PROFERIDA EM 1587 NO PROCESSO CONTRA O PRIOR DE TRANCOSO

 

(Autos arquivados na Torre do Tombno, armário 5, maço 7)
“Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e
dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas
públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os
quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi
arguido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de ter dormido
comvinte e nove afilhadas e tendo delas noventa e sete filhas e trinta
e sete filhos; de cinco irmãsteve dezoito filhas; de nove comadres
trinta e oito filhos e dezoito filhas; de sete amas teve vinte e nove
filhos e cinco filhas; de duas escravas teve vinte e um filhos e sete
filhas; dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve três
filhas. Total: duzentos e noventa e nove, sendo duzentos e catorze do
sexo feminino e oitenta e cinco do sexo masculino, tendo concebido em
cinquenta e três mulheres”. Não satisfeito tal apetite, o malfadado
prior, dormia ainda com um escravo adolescente de nome Joaquim Bento,
que o acusou de abusar em seu vaso nefando noites seguidas quando não
lá estavam as mulheres. Acusam-lhe ainda dois ajudantes de missa,
infantes menores que lhe foram obrigados a servir de pecados orais,
completos e nefandos, pelos quais se culpam em defeso de seus vasos
intocados, apesar da malícia exigente do malfadado prior.

( agora vem o melhor )

“El-Rei D. João II lhe perdoou a morte e o mandou pôr em liberdade aos
dezessete dias do mês de Março de 1587, com o fundamento de ajudar a
povoar aquela região da Beira Alta, tão despovoada ao tempo e, em
proveito de sua real fazenda, o condena ao degredo em terras de Santa
Cruz, para onde segue a viver na vila da Baía de Salvador, como
colaborador de povoamento português. El-rei ordena ainda guardar no
Real Arquivo esta sentença, devassa e mais papéis que formaram o
processo”.

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