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O problema não é a comédia

Luiz Zanin Oricchio

04 de dezembro de 2013 | 09h43

A retrospectiva do CineSesc, que começa amanhã, fornece um retrato sem retoques do que foi o cinema brasileiro em 2013. Serão reprisados todos os filmes nacionais lançados ao longo do ano, sem distinção de categoria, cor política, credo, qualidade estética ou qualquer outra. É a mais democrática das mostras, porque prescinde de qualquer tipo de recorte curatorial. Nela, todos têm vez.

E o que vemos nesse retrato sem photoshop é não apenas o cinema que tivemos como provavelmente o cinema que teremos nos próximos anos. Numa primeira apreciação do retrato, o que enxergamos como mais óbvio? A confirmação de que as comédias dão o tom do sucesso de bilheteria atual. Filmes cômicos, de preferência com atores e atrizes da TV Globo são a fórmula atual do êxito no Brasil.

Dos títulos que ultrapassaram o marco simbólico do milhão de espectadores apenas Somos Tão Jovens e Faroeste Caboclo escapam ao gênero cômico. Todos os outros são comédias– Minha Mãe É uma Peça, De Pernas pro Ar 2, Meu Passado Me Condena, Vai que Dá Certo, O Concurso e Mato sem Cachorro.

Ano após ano essa tendência vem sendo desenhada e reafirmada. Há quem prediga o esgotamento do gênero. Outros apostam em seu fôlego. Bem, é preciso não confundir análise com desejo. Gêneros não se esgotam com tanta facilidade e a comédia vem sendo praticada desde a Grécia antiga sem que a humanidade dê mostras de exaustão. Rir faz muito bem. Rir é prazeroso. O bom humor é um valor precioso e, num tempo menos exasperado, já foi tido como traço de caráter do povo brasileiro. O que talvez se possa indagar é pela qualidade do material oferecido ao riso do público. Nesse ponto talvez os produtores da nova comédia à brasileira estejam dando sopa ao azar, ao supor que a repetição do mesmo pode se eternizar no gosto do público.

Mas, enfim, a variada mostra do CineSesc concede uma segunda oportunidade também a filmes que estiveram longe de seduzir o grande público à maneira de uma comédia da Globofilmes.

Por exemplo, O Som ao Redor, de Kléber Mendonça Filho. Chegou próximo dos 100 mil espectadores, o que é uma marca razoável para uma obra do seu tipo. Poderia ter ido além, caso as condições de distribuição e exibição no Brasil fossem melhores para obras de empenho. Afinal, pela repercussão crítica, pelo debate que desencadeou e pelo prestígio que trouxe ao cinema brasileiro, essa produção do Recife deveria ter sido vista por mais gente. De qualquer forma, o pessoal de O Som ao Redor não tem do se queixar. Foi visto, discutido, debatido e agora concorre a uma vaga na final do Oscar de melhor filme estrangeiro.

E outras produções, ótimas também, e que não tiveram a mesma oportunidade? Filmes de ficção como Era uma Vez Eu, Verônica e O que se Move, documentários como Doméstica e Repare Bem, ficaram muito aquém das suas potencialidades.

O problema não é as comédias estourarem nas bilheterias. Grave é os bons filmes não terem melhor oportunidade no mercado.

Polêmica 

Quando a Embrafilme foi extinta, o cinema brasileiro quase desapareceu. O setor se mobilizou para que se encontrassem novas formas de financiamento, mas, 20 anos depois, vozes importantes sugerem que o cinema precisa agora se livrar do colo protetor do Estado. É o que afirmam Roberto Moreira e Jean-Claude Bernardet no artigo Cinema sem a tutela estatal, publicado em O Globo de 21/11/2013.

Nele, comemoram que, pela primeira vez em décadas, parte da produção nacional tenha retornado o investimento ao Estado. Mas lamentam que o sistema ainda seja protegido pelo guarda-chuva estatal, “sem necessidade de passar pelo filtro do mercado”. Fosse um liberal empedernido a dizer isso, não causaria sequer um comentário. Mas vindo de Bernardet, crítico famoso e ensaísta dos mais respeitados do País, o efeito é de nitroglicerina.

O artigo de Moreira & Bernardet já foi rebatido pelo cineasta e articulista Eduardo Escorel sob o título Dois Sofistas entre nós, publicado no blog da revista Piaui. Escorel aponta incoerência entre os filmes de Moreira e os ensaios de Bernardet e a defesa que agora fazem da função reguladora do mercado. O assunto promete pegar fogo quando Bernardet debater seu artigo com críticos de cinema no Festival Aruanda, que começa dia 13 em João Pessoa/PB

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